Tive o prazer de
conhecer Renata Andrade, e venho
acompanhando um pouco de seus passos artísticos. Uma pessoa de fala leve e
que é um turbilhão por dentro. Solidária e curiosa, tem aquele jeitinho de “criança
louca para botar o dedo no bolo de chocolate da aniversariante”... Sempre que a
encontro, rimos muito e falamos com gosto, da arte de narrar. Então, decidi,
entrevistá-la para que vocês a conheçam melhor.
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Cenas de "Cordel do Amor sem Fim", montagem do Teatro Trupiniquim, 2010 - foto de Alexandra Arakawa. |
Renata
Andrade é atriz, contadora de histórias e educadora, nascida interior do Rio de
Janeiro, Volta Redonda, onde teve seus primeiros contatos com o teatro. Em 2002
chegou ao Rio e atuou em dois espetáculos do Gene Insanno Cia Teatral; em um
deles foi apresentada à linguagem da Contação de Histórias.
Entre 2003 e
2007 graduou-se em letras na UFRJ, fez técnico de atores na Martins Pena e
cursou especialização em latim na UERJ. Na Martins, ganhou um papel que a
marcou, a Mãe em Bodas de Sangre, dirigida por Monica Lazar, e conheceu
artistas com os quais tem trabalhado até hoje. Na UFRJ, contou histórias no
IPPMG junto à pesquisa sobre Literatura Infantil. Em 2005, começou a narrar
histórias no Sesc-Bm e de lá para outros lugares.
Entre 2009 e
2011, foi Contadora de Histórias no PCP-Maré. Em meados de 2009, começou a
lecionar. Paralelamente a estes dois trabalhos, dirigiu a produção de A última
Flor, no Teatro Gláucio Gil. Após o espetáculo adentrou o Teatro Trupiniquim, a
convite de KarolSchittini.
Neste
coletivo de artistas, atuou em Cordel do Amor sem Fim; Rosa dos Ventos;
Pierrot, Arlequim e Colombina, A Boca da Noite e MBOIOBM (prática de sua
pesquisa artística pessoal).
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Na Boca da Noite - 2012 - Foto de Wallace Feitosa. |
Jiddu Saldanha – Fale
um pouco do que te motiva a dedicar-se à arte de narrar histórias.
Renata Andrade - Contar histórias é uma oportunidade de entrar em
comunhão com as pessoas, falamos de coração a coração sem barreiras. Eu me abro
pra elas. E regozijo-me quando elas se abrem para mim.E tudo que vivemos ali é
verdade.
Jiddu Saldanha – Como você escolhe uma história pra
contar? Que tipo de estímulo te leva a optar por uma ou outra história?
Renata Andrade - Acontece quando vejo na história a
possibilidade de colocar algo que me está encucando no momento.
O Pinto Suraeu escolhi por ele me
fazia rir em sua fraqueza, mas também era um personagem audaz, pegou um desafio
e foi. Adoro histórias de macaco, porque ele vai além no imaginar-fazer e
também porque suas histórias possuem antagonistas recorrentes. Na medida que os
conhecemos em uma história saberemos como eles agirão em várias, daí uma
história puxa a outra.
Às vezes escolho porque a história me
faz expressar um sentimento que está preso dentro de mim, para elaborar-me;
outras vezes porque quero brincar com um ritmo. E um tema que me encanta. Mas
dificilmente será porque alguém me pediu.
JS -Você está estudando
a fundo o mito da Cobra Grande, fale um pouco sobre isso e porque escolheu este
mito?
RA - Considero-me
bem no início da estrada que quero descobrir, há muito a ver e quero contar pra
vocês. Encanta-me que se trate de uma personagem de criação coletiva (pois se
mantém viva através da tradição oral) e pode refletir parte da psicologia
humana, portanto particular, ao mesmo tempo em que é um bom entretenimento, com
atos de bravura, romance, inveja e encantamento.
A Cobra Grande está ligada aos mitos
de criação do homem e do mundo tal qual o homem
sabe, com dia e noite, vida e morte, sujeito carregado de bem (conhecido) e mal
(desconhecido); isso pode até soar maniqueísta, embora não seja tão simples
assim.Na língua tupiela já recebeu três nomes,Mboiguaçu (Cobra Grande), Mboiuna
(Cobra Preta) eMboitata (Cobra de Fogo).
Ao unir os contos dessa figura recolhidos por todo o Brasil, comecei a
traçar um perfil do personagem.
A história dessa cobra se assemelha às
narrativas de outras partes do mundo. Na África,
conta-se que embaixo da terra, em seu centro, há uma cobra que circula o tempo
todo, atrás de seu próprio rabo, dando voltas no mesmo lugar. Enquanto esta
cobra continuar circulando, a terra prospera. Quando ela parar, tudo que é vivo
morre.
Como símbolo, a serpente é oposta
e complementar ao homem, está diretamente ligada à parte que desconhecemos. Interessa-me
metaforizar, através destas histórias, como a serpente habita um sujeito
enquanto pulsão de vida eseus ritos de passagem - da escuridão à luz e
vice-versa.
Como parte prática desta pesquisa,
trabalho com mais um ator em A Boca da Noite e MBOIOBM, uma performance que
criei motivada pela pergunta que desejo
deixar como refletida ou sentida de alguma forma no público: Como esta serpente
circula dentro de mim?
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Mostra do saber popular 2012 foto de Ana Paula Silva |
JS – Quais os
narradores de história que você admira? Fale um pouco da experiência de tê-los
assistido.
RA - Sou grata
por ter amigos contadores de história que admiro. É interessante que cada
narrador, bom narrador, conta sempre de um jeito muito próprio. Só ele conhece
a história desse jeito.
Jiddu Saldanha, conhece? O cara conta
história com o corpo e, nas apresentações que eu assisti, sua narrativa tinha
uma estrutura quase pedagógica,um disseminador de conhecimento.Parecia que, ao
sair dali, as crianças estavam prontas para recontarem a história que ouviram.
Bernardo Zurk conta com uma aparente
ingenuidade cômica. A gente não acredita que ele vai fazer aquilo. O que parece
simples, na verdade está carregado de técnica (depois ele me mostra). E
funciona de tal forma, que quando ele repete a história te parece simples de
novo.
A Solange Penna conta de umaforma muito
divertida,careteira e musical e diz que não é contadora (lorota né Solange). A
Silvia Ferraz, do Baú que Conta, é capaz de desenrolar o fio da história por
muito tempo mesmo, de tal forma que você fica com ela por todo esse tempo.
Agora, uma que não é minha amiga(mas
eu queria muito conhecer) é a Dona Zefa. Assisti suas contações em um vídeo que
acompanha o livro “Corpo a Corpo” de Zeca Ligièro - Professor da Unirio e
Diretor Teatral - e também pude ouvi-lo falar dessa figura. Dona Zefa é
contadora de fato, parece até que nasceu assim. Desde menina, ela conta
histórias incríveis inspiradas na bíblia e na sabedoria popular. E conta como
se os personagens e o causos fossem acontecidos ainda agora, como se fosse a
história de um vizinho nosso. Parece uma daquelas vozes saídas das histórias
coletadas por Câmara Cascudo, Simões Lopes Neto e outros.
Assistir essas pessoas em histórias
diversas faz a gente conhecer um pouco delas. E daí me dou conta que quem me
ouve contar também sabe de mim. Essa troca é linda, não deve parar.
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Renata aguarda o momento de entrar em cena para o seu espetáculo de narração atual "A Boca da Noite" 2012 foto de wallace feitosa. |
JS – Faça sua lista de
filmes preferidos.
RA - São muitos
outros fui descobrindo, mas os queme vêm mais frequentemente são: O Fabuloso
Destino de Amelie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet; Cenas de um Casamento, Gritos
e Sussurros e Persona, de Bergman; O Carteiro e o Poeta (Mássimo e a melhor
explicação do que é metáfora), de Michael Radford; Tudo sobre minha mãe, de
Almodóvar;La Strada, de Fellini; Humberto D, de Vittorio de Sica; O Casamento
de Maria Braun, de Fassbinder; O Sopro do Coração, de Louis Malle; Como água
para chocolate, Alfonso Arau; e vai por aí...
JS – O que você
recomenda para as pessoas que estão começando a lidar com a arte de narrar
histórias?
RA - Ler,
ouvir, ver, sentir o que vem de fora a partir do que vem de dentro. Que a sua
história seja singular. E não feche uma história, tenha a delicadeza de deixar
uns espaços nela. Ela sempre pode mudar, pois cada público que te ouvir se
encarregará de fazer sua contribuição ou novos espaços; e porque o que é
verdade para nós também muda com o tempo.Ninguém é. Estamos sendo.
JS – Você se dedica à
educação e ao teatro, como é se equilibrar no universo da pedagogia e o
universo da arte, pra você?
RA - É muito difícil,
pois estes ofícios se desencontram no tempo-ritmo que exigem da nossa vida. Encontram-se,
porém,na ludicidade e no potencial transformador da sociedade que têm.
Tem muito suor e rotina no trabalho
do professor. Atualmente, estetrabalho requer uma carga horária em bloco e, por
isso, tem que se criar pausas, pequenos descansos para não virar tijolo ou
argamassa da educação. Nestas condições,meu desafioé tomar a preparação pontual
como processo.
E a arte precisa estar comigo a todo
momento, na verdade, eu é que preciso estar com ela, respirá-la. Minhas
apresentações duram de 40 a 60 minutos e são preparadas por muito mais tempoque
isso, às vezes, o envolvimento com uma história leva anos.Já as aulas costumam
ser preparadas por ¼ do tempo utilizado para se manifestarem. Pergunto-me
sempre como unir estes universos.
Ser bipolar ou desenvolver dupla
personalidade não resolve. Tenho lidado com isso respirando as duas coisas,
entendendo-as como uma só: o movimento de transformação lúdica do real, com
roteiros diversos adequados a cada público, tema, situação.Mas isto também é
projeto de pesquisa e prática contínuo.
JS – Quem é Renata
Andrade por Renata Andrade?
RA - Renata
não é. Já digo que ela detesta que a caricaturem
com um único adjetivo, dá logo um montão ou dê nenhum. Dramática, alegre,
insegura, criativa, inquieta, metafórica, capaz, doce, direta. Até parece
bailarina, mas não é, não tem cara de atriz, nem de professora, menina, mulher,
tia, amiga, filha. Prepotente propensa comunista que ganha o capital de cada
dia, crê que nenhum desejo foi, nem é grande demais (pra ninguém no mundo). É a
vida que diz isso enquanto se respira. Mas os outros causam um puta medo. Será
que concordam?
Mas já que é Renata por Renata, digo
que assumi a etimologia do nome, com o compromisso de renascer quando sinto que
morri. Parece lógico. Que bom. Aceitar a morte para receber a vida. Os contos
de fada nos ensinam que essa é uma forma de ouvir a intuição. E, sim, eu sou
laranja e um pouco de lilás também.
Veja alguns vídeos com a participação de Renata Andrade.
Cordel do Amor sem Fim - Teatro Trupiniquim