OBRIGADO POR SUA HISTÓRIA

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A Invasão da Poesia.

Num momento de profunda crise econômica e política, Cabo Frio sofre a invasão da poesia. Poetas são assim, seres que aparecem nos momentos em que a sociedade os chama através de uma complexa rede telepática. Clube do Poeta, Degustando Arte, Sarau da Tribal, Flores Literárias, Varal do Beijo, Festival de Inverno Literário, TCCEXTA e o surgimento do selo Camarada García,  pavimentam uma nova ERA DA POESIA para Cabo Frio.

Cintra levando meu livro, figura onipresente em Cabo Frio.
Não só a poesia, mas também a prosa, eu diria, a literatura sendo revitalizada, com novos nomes surgindo no cenário da poesia da Região dos Lagos. Um desses nomes é, sem dúvida, André García, que resolveu "cair dentro", trazendo uma avalanche de novidades. Além de uma poesia aderente, profunda e contestadora, é, também, uma ação cotidiana que faz levantar a poeira do lado de cá. Honrando uma tradição que traz Paulo da Silveira como ícone e a figura errante de Miguel Lima, construindo um cenário que já vinha se fortalecendo, principalmente com a injeção de energia proposta pelo primeiro FESTIVAL DE INVERNO LITERÁRIO DE CABO FRIO, um evento magnífico, que fez diversos poetas "saírem da toca", enquanto novos chegavam.
Espalhando arte e estetica desde 2014, o "Varal do Beijo", de Nathally Amariá,
evidencia uma tendência de que a poesia circula sutilmente no coração da
juventude de Cabo Frio.
Ainda em 2016, o Sarau da Tribal, amalgamou várias fontes criativas, num evento inesperado, mas que aconteceu de forma incrível, no espaço Usina 4, com casa lotada, trazendo como voz principal, n aquele dia, a figura da jovem poeta Beatriz Ebecken que invadiu a praia com sua poesia ácida, sensual e provocadora. Neste mesmo dia, jovens como Jean Monteiro, Nathally Amariá, Celso Guimarães e Dandara Melo, fizeram a poesia explodir, numa avalanche de palavras que ajudaram a criar um ambiente fluido e provocativo. Completamente arrebatado pela fúria dos jovens que ali se manifestavam, nem José Facury resistiu, subiu no palco e destilou sua narração de histórias, deixando o público feliz e participativo.
Outro nome que se faz presente em diversos saraus é o professor de física do IFF - Cabo Frio, Henrique Selani, que, com uma poesia cheia de referências históricas, evoca uma fala contundente e, trazendo os deuses do olimpo, novamente, através de verdadeiras orações bacantes impregnadas da mais sofisticada linguagem literária. Henrique vem bebendo na fonte da mais fina literatura muncial, descobrindo o melhor de sua arte poética, através de reflexões profundas em vertentes que tem em Miguel Gullander, sua mais forte influência.
No bojo dessa nova geração, aparece Nathally Amariá, que, com seu VARAL DO BEIJO, vai, de forma sutil, costurando energias produtivas e criativas, dentro de um universo poético que começa a explodir com grande força, neste fatídico e desastroso ano de 2016, um ano que explode crises mas que marca o renascimento da poesia Cabofriense. Nathally é também poeta e já esteve num grande evento de poesia, em 2014, o "Congresso Brasileiro de Poesia", tendo participado, inclusive, da antologia POETA MOSTRA SUA CARA, com seus haicais, junto com Ravi Arrabal e Kéren-Hapuk. Seu blog BEIJO QUE VIROU ARTE, virou referência para pessoas de sua idade, mas já aponta para uma literatura que vem surgindo com certo capricho estético.
Jaqueline Brun e Andrea Rezende, com o sarau Flores Literárias, revelam novos nomes da poesia local e consolidam a presença daqueles que já fazem poesia a mais tempo, como o querido Rodrigo Poeta, que traz uma reflexão forte e um mergulho no desafio do próprio fazer, reconstruindo olhares e entranhando-se cada vez mais como um observador atento ao fluxo existencial de Cabo Frio e Arraial do Cabo.
Sem sombra de dúvida, a jovem Lorena Brites com seu livro Acervo de Palavras, abriu caminhos a ombros, para uma geração que não quer se conformar, cria seu discurso e reinventa-se através de um desafio permanente, dar sentido à vida e continuar na trilha de tornar a arte um caminho necessário para o processo educacional e vivencial da cidade. Também é bom rememorar o belíssimo festival de contos de Cabo Frio, organizado pela LITERARTE, da incrível Isabelle Valladares, em 2013, um acontecimento impactante para as letras de Cabo Frio.
A poesia Cabofriense também teve suas perdas. A figura do poeta  Paulo da Silveira, patrono do Clube do Poeta e mentor de nomes como Azul Cazu e Fabio de Freitas, era uma referência de resistência e permanência na linguagem e, agora, recentemente, nos despedimos do querido Carlos Alberto, da ARTPOP, que fazia forte militância pela literatura local, criando uma fonte inesgotável de relações entre o fazer literário e a conjunção de forças diferentes da busca do fazer artístico.
Uma mistura de gerações, em saraus das mais diversas naturezas inventivas, agora, parecem encontrar impacto e permanência em Cabo Frio, apontando para a possibilidade de uma nova era para o forte movimento que está surgindo na cidade.

(Jiddu Saldanha - Blogueiro)

quinta-feira, 14 de julho de 2016

André García, um cronista de sua geração.

André García tornou-se um nome forte da poesia cabrofriense, quem o conhece sabe de sua irreverência e do seu "não ter papas na língua", dito isso, André é um criador rigoroso, faz poesia e escreve contos com tom devidamente profissional e vive o cotidiano da cidade como um cronista de sua geração.


André García clicado pelo poeta dos cliques, o fotógrafo Marcos Homem.
André já circulou por diversos lugares da cidade, como poeta, é uma espécie de "andarilho urbano", desses que vai aos lugares sem compromisso. Chega a hora que quer e sai quando a gente menos espera, comportamento típico de poeta. Bom mesmo é ouvir seus poemas, quando ele sobe no palco, fala com o coração e mostra uma poesia ácida que não deixa pedra sobre pedra. Camarada García, como costuma se chamar, é, na verdade, um artista que resolveu levar sua arte a sério e vive vida de poeta, dividindo seu tempo entre a produção, o emprego e reinvenção de si mesmo.

Na casa ancorada, André irá ensinar como fazer um Fanzine!
Desde que o conheci, ele investe, sempre, na sua produção. Cria seus livros, e sai por aí, vendendo seu material. Reclama que ninguém lê, tremando "sétium", já que, se tem escritor em Cabo Frio que tem leitores, esse cara é ele. Blogueiro da pesada, publica com disciplina e quem conheceu sua fase cineasta, sabe que seus filmes causavam sensações no Cine Mosquito, o Cine Clube mais antigo de Cabo Frio.  
Uma vez, a galera do OFICENA deram por falta do André e começaram a especular porque ele não foi mais ao curso, respondi logo para que não ficasse dúvida. André é um poeta, ele veio aqui por comprometimento com sua poesia, veio e foi embora, a nós, só resta a gratidão, por saber que tivemos, circulando pelas entranhas escuras do teatro semi-abandonado, a figura daquele que será, talvez, um dos poucos poetas que se salvará, de fato, enquanto criador de uma obra robusta.

A faze audiovisual de André García, deixou marcas no Cine Mosquito, onde fez um
tremendo sucesso! Quem não lembra da série "Boladão na Madruga"! Curta aqui o 
episódio 15.

"Boladão na Madruga" irreverente e sarcástico, André García marcou época com seus 
filmes alternativos. Espero que um dia ele volte a fazê-los, mas disso não podemos ter
qualquer certeza, André segue seu coração e faz o que sente que tem que fazer; a nós, 
cabe curtir um pouco de suas criações!

Recebo aqui, a notícia de que ele vai dar uma oficina de Fanzine. Com certeza, será um sucesso, mais um momento incrível proporcionado pelo pessoal da Casa Ancorada, um centro cultural independente que está buscando sua conexão com a galera alternativa da cidade, encontraram o cara certo, porque André é uma vertente de poesia genuína de Cabo Frio, aprender com ele significa mergulhar em algum tipo de essência e viver momentos que a gente não vai esquecer nunca.
Dale Camarada García.

Jiddu Saldanha - Blogueiro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Viagem ao Chile - 2014

Recebendo o prêmio Yolanda Hurtado, direto das mãos
do Sr. Roberto Hoppman.
A experiência de conviver com o povo de Santiago, Chile, gerou em mim, sentimentos complexos. A vontade de mostrar minha arte além fronteiras é uma delas. Poder conhecer um povo diferente em sua cultura mas semelhante em diversos aspectos com o Brasil. Sem dúvida que uma das melhores energias que pude sentir foi o amor e o respeito que o chileno tem para com o brasileiro. Andar pelas ruas de Santiago, sentir a velocidade de uma sociedade que trabalha como formiga, foi uma experiência linda e diferente. Estar em um país tão organizado, para os padrões da nossa tão sofrida América Latina, e conviver com uma população tão crítica de suas próprias idiossincrasias.
Outro fator que me manteve em estado de gratidão, foi a forma como fui tratado, não apenas pelas pessoas que me cercaram - para que eu tivesse a qualidade de vida necessária para cumprir minha missão naquele país -  mas também, pela equipe do belíssimo espaço cultural Taller Siglo XX Yolanda Hurtado. Um grupo de profissionais altamente qualificados, cada um rendendo o máximo em sua função específica. Momentos inesquecíveis que iam desde uma boa conversa à troca de experiência artística em todos os níveis. Lá, pude convviver, ainda que por pouco tempo com: Juan Galdamez, Antonio Ortiz "Toño", Roberto Jadue, Pablo Casals, Macarena Sides "Cota", Gabriela Souza, David Fernández, Roberto Hoppmann, Constanza Castillo, Luciano Marchant (videasta), Hugo Fernández (diseñador - disign).

Foram as três apresentações na cidade de Santiago: 

Espetáculo e bate papo com crianças e jovens da sociedade israelita Bet - El, onde pude, não apenas mostrar minha técnica mas também falar sobre ela. Um momento vivido com plenitude, poder sentir a força e a energia de uma juventude que vem chegando ao mundo com a fúria transformadora e ao mesmo tempo, o equipamento existencial e a ética trabalhada na sensibilidade da arte. Foi bonito ver, num pátio, abrigado por uma lona, tantos jovens interessados no que eu tinha pra dizer com meu silêncio e minhas palavras. A educação e o respeito, além da curiosidade e a alegria de viver, marcaram minha primeira performance em Santiago.

Ao final do espetáculo, receber o carinho da platéia, não tem preço!
Oficina de Mímica para artistas e educadores de Santiago. Um grupo seleto de pessoas especiais em suas almas e sensibilidades, permitiu uma troca de informação em um curto período de apenas 3 horas de duração mas intenso na completude gerada pela positividade das pessoas presentes. O santiaguino é um curioso, semelha-se muito ao brasileiro, pergunta tudo e tem uma sede de querer experimentar na prática, aquilo que se está dizendo. Além de um rico bom humor e uma inteligência aguçada pelo forte hábito de estudar, incutido no imaginário de um povo que deu ao mundo artistas como Pablo Neruda, Gabriela Mistral e Roberto Bolaño.

Espetáculo de mímica "Mímica Maravilhosa", que nada mais é que o espetáculo histórico que faço a 25 anos, "Por Detrás do Silêncio", que, depois de circular pelo nosso imenso país-continente, o Brasil, agora fez sua estréia numa ótima casa de espetáculo. O Taller Siglo XX Yolanda Hurtado, onde, com um público muito especial, colhido na melhor safra da sensibilidade santiaguina, pude me emocionar no palco, ao lado de pessoas como artista visual e cirurgião plástico, Roberto Hoppmann; a locutora da rádio universitária de Santiago, Lala Salamanca e o poeta chileno que é um dos mais conhecidos no Brasil, Leo Lobos. Ter pessoas assim na minha platéia, foi um privilégio, uma troca efusiva de experiência e sensibilidade, mergulhados na essência e no maior da vida!

Novos amigos, novos encontros para a vida! Da esquerda para a direinta:
Leo Lobos, Pablo Casals, Jiddu Saldanha, Roberto Hoppmann e
Macarena Sides "Cotta".
Circular por Santiago e reencontrar amigos como Noél Oiveira, Cristian Hernandez e Jeniffer Aburto, foi algo que não se esquece jamais. A acolhida, a troca de energia e informação, faz a gente pensar o quão parte se faz da comunidade planetária. Por um lado sou brasileiro, mas é como se aquelas pessoas que lá encontrei, já fosse parte de uma comunidade que, se não é uma família, ao menos, são vizinhos muito próximos e é como se já estivessem lá, esperando a minha volta.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Simpósio Internacional de Contadores de Histórias retorna em grande estilo.

Arquitetura e Narração de Histórias, um encontro de águas
na pororoca brasileira!
Toda uma geração de narradores se formou no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, um grande acontecimento, iniciado em 2002 e que, depois de 10 edições, teve uma pausa em 2012 para retornar com toda a força em 2014, em Niterói; nada mais nada menos que no magnífico complexo arquitetônico de Oscar Niemayer. Aliás, vale um elogio especial para a cidade de Niterói, que tem a segunda maior concentração de obras do mais importante arquiteto brasileiro, perdendo apenas para a capital, Brasília-DF.
Suntuosidade à parte, o Simpósio Internacional de Contadores de  histórias é um marco brasileiro para os profissionais que vivem da narração. Até então, os eventos produzidos envolvendo contadores de histórias eram mais regionais e de cunho nacional, bastou surgir o Simpósio e esta arte foi alçada ao ápice, criando uma teia de influências e elevando os contadores de histórias brasileiros à categoria de artistas do mesmo porte dos atores, diretores e cineastas.

Em 2014, o retorno de um dos mais importantes eventos para Contadores de Histórias do País.
Hoje, o país vive um boom desse tipo de expressão artística com pessoas influentes na área de educação e leitura, fazendo e acontecendo, criando não só status, mas gerando mercado para esses profissionais atuarem com respeito e dignidade. Tem sido assim nos últimos 15 anos e sem dúvida, a narração de histórias atingiu mais espaço e conseguiu inserção séria na mídia nacional graças à habilidade da produção do Simpósio, que soube dar um gás a mais a esta prática artística que hoje tem seu lugar garantido no a painel das artes brasileiras.
A partir do dia 05 de Fevereiro, a arte de narrar terá, em solo brasileiro, importantes nomes desta arte e todos concentrados na cidade de Niterói, no ano da graça de 2014.
NÃO PERCA! 


domingo, 20 de janeiro de 2013

CCBB - Um templo da cultura Carioca, recebe meu espetáculo "Palavra Entrelaçada"!

Foto de Lara Rothier - Espetáculo
"Palavra Entrelaçada" - 2013

Existem momentos na vida em que festejar é pouco! Romper barreiras limitadas pelo mercado e conseguir adentrar num templo da cultura carioca é algo do qual realmente se deve sentir orgulho...

O CCBB é um velho amigo de guerra, lá vivi algumas experiências de poder compartilhar com o público a minha linguagem cênica. Não é fácil chegar àquele lugar, quando se é um artista independente, sem financiamento, mas, por outro lado, não é impossível. Poder mostrar a riqueza de uma linguagem pessoal sem imitação de padrões ou cânones, buscando uma originalidade e se conectando artisticamente através da arte do SOLO teatral, nos palcos.
A primeira vez, em que estive naquele fabuloso templo da cultura carioca foi em 1999, convidado pelo projeto Leituras e Gostosuras, coordenado por Christianne Rothier e Marina Quintanilha Martinez, e fui fotografado por Mônica Leme. Nesta época apresentei o espetáculo POR DETRÁS DO SILÊNCIO, meu solo de mímica teatral, que estreou em Curitiba, em 1991, com supervisão e repertório do meu mestre de mímica Everton Ferre. Neste fabuloso momento fui clicado pela fotógrafa carioca Mônica Leme.

Em 2011, no teatro 02, o espetáculo "De Gestos e de Palavras", desta vez, clicado por João Carlos Luz.

Retornei ao CCBB em diversos momentos, fazendo performances nas salas de oficinas, mas, em 2011, fui convidado para realizar meu espetáculo “De Gestos e de Palavras”, onde juntei a mímica teatral e a narração de histórias, focada em lendas japonesas. Um trabalho criado em 2008 em homenagem aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil. Foi uma bela experiência, registrada pelo meu amigo poeta e cinéfilo, João Carlos Luz. Foi quando conheci o teatro 2, com todo seu potencial de público e seu espaço privilegiado, consagrado para a grandes espetáculos, lembro de ter assistido lá o músico Carlos Careqa, com o incrível Arrigo Barnabé.
Em 1999, uma apresentação no hall do CCBB, clicado por
Mônica Leme, espetáculo de mímica "Por Detrás do Silêncio".
Em 2013, logo no início do ano, sou convidado novamente e, desta vez para apresentar meu espetáculo PALAVRA ENTRELAÇADA. Meu novo espetáculo que estreou em 2011, no teatro Iná Mureb, em Cabo Frio.  Desta vez, o espetáculo foi levado no teatro 01, onde, em outras épocas assisti a espetáculo nada mais, nada menos que de Bia Lessa (Viagem ao Centro da Terra), Grupo Galpão (Rua da Amargura) e Ponto de Partida (Grande Sertão Veredas) além do belo espetáculo “Guerra Santa” de Gabriel Vilela.
Nessa minha nova incursão pelo espaço, tive o prazer de compartilhar o momento com a pessoal do coletivo Teatro Trquipiniquim e fui clicado pela fotógrafa debutante Lara Rothier, que fez belos cliques deste meu novo trabalho que já vem ganhando seu espaço, no território Nacional. 
O QUE SERÁ QUE VIRÁ PARA OS PRÓXIMOS MOMENTOS DE 2013?


sábado, 8 de dezembro de 2012

Rumo a Macapá.

Narrar com Voz e Mímica, exercício e
busca pessoal.
A oficina “O Gesto na Narrativa Oral”, que teve sua estréia no “VI Simpósio Internacional de Contadores de Histórias”, já tem 5 anos de estrada. Viajando pelo Brasil, levando reflexões sobre a gestualidade do contador de histórias, tem como objetivo principal, acrescentar a mímica como parte do “discurso cênico do narrador”.

***
Dessa vez, estarei ministrando essa oficina-vivência, como gosto de chamar, nas dependências da UEAP – Universidade Estadual do Amapá em Macapá, capital, e lá com certeza, irei usufruir dos ares amazônicos além de levar minha percepção de trabalho para jovens e adultos que curtem a arte de narrar.
Desde que saí de uma oficina do grupo Morandubetá, em 1993, ministrada na UERJ e que tive o prazer de ser aluno de nomes como: Lúcia Fidalgo, Celso Sisto, Eliana Yunes e Benita Prieto,  juntei a arte da mímica, herança do meu querido mestre Everton Ferre, com a arte da narração oral e de lá pra cá, foi um casamento perfeito.  Somado a isso a experiência com meus 30 anos de teatro, me sinto num momento de grande encontro entre a técnica, a experiência e a “pretensa” sabedoria. 
Encontrar jovens que queiram mergulhar na arte da narração oral é um exercício de múltiplas possibilidades entre essa energias agregadas ao longo de minha história pessoal. Galera de Macapá, to chegando!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Entrevista com Renata Andrade - 2012


Tive o prazer de conhecer  Renata Andrade, e venho acompanhando um pouco de seus passos artísticos. Uma pessoa de fala leve e que é um turbilhão por dentro. Solidária e curiosa, tem aquele jeitinho de “criança louca para botar o dedo no bolo de chocolate da aniversariante”... Sempre que a encontro, rimos muito e falamos com gosto, da arte de narrar. Então, decidi, entrevistá-la para que vocês a conheçam melhor.


Cenas de "Cordel do Amor sem Fim", montagem do Teatro Trupiniquim, 2010 - foto de Alexandra Arakawa.
Renata Andrade é atriz, contadora de histórias e educadora, nascida interior do Rio de Janeiro, Volta Redonda, onde teve seus primeiros contatos com o teatro. Em 2002 chegou ao Rio e atuou em dois espetáculos do Gene Insanno Cia Teatral; em um deles foi apresentada à linguagem da Contação de Histórias.
Entre 2003 e 2007 graduou-se em letras na UFRJ, fez técnico de atores na Martins Pena e cursou especialização em latim na UERJ. Na Martins, ganhou um papel que a marcou, a Mãe em Bodas de Sangre, dirigida por Monica Lazar, e conheceu artistas com os quais tem trabalhado até hoje. Na UFRJ, contou histórias no IPPMG junto à pesquisa sobre Literatura Infantil. Em 2005, começou a narrar histórias no Sesc-Bm e de lá para outros lugares.
Entre 2009 e 2011, foi Contadora de Histórias no PCP-Maré. Em meados de 2009, começou a lecionar. Paralelamente a estes dois trabalhos, dirigiu a produção de A última Flor, no Teatro Gláucio Gil. Após o espetáculo adentrou o Teatro Trupiniquim, a convite de KarolSchittini.
Neste coletivo de artistas, atuou em Cordel do Amor sem Fim; Rosa dos Ventos; Pierrot, Arlequim e Colombina, A Boca da Noite e MBOIOBM (prática de sua pesquisa artística pessoal).


Na Boca da Noite - 2012 - Foto de Wallace Feitosa.
Jiddu Saldanha – Fale um pouco do que te motiva a dedicar-se à arte de narrar histórias.
Renata Andrade - Contar histórias é uma oportunidade de entrar em comunhão com as pessoas, falamos de coração a coração sem barreiras. Eu me abro pra elas. E regozijo-me quando elas se abrem para mim.E tudo que vivemos ali é verdade.

Jiddu Saldanha – Como você escolhe uma história pra contar? Que tipo de estímulo te leva a optar por uma ou outra história?
Renata Andrade - Acontece quando vejo na história a possibilidade de colocar algo que me está encucando no momento.
O Pinto Suraeu escolhi por ele me fazia rir em sua fraqueza, mas também era um personagem audaz, pegou um desafio e foi. Adoro histórias de macaco, porque ele vai além no imaginar-fazer e também porque suas histórias possuem antagonistas recorrentes. Na medida que os conhecemos em uma história saberemos como eles agirão em várias, daí uma história puxa a outra.
Às vezes escolho porque a história me faz expressar um sentimento que está preso dentro de mim, para elaborar-me; outras vezes porque quero brincar com um ritmo. E um tema que me encanta. Mas dificilmente será porque alguém me pediu.

JS -Você está estudando a fundo o mito da Cobra Grande, fale um pouco sobre isso e porque escolheu este mito?
RA - Considero-me bem no início da estrada que quero descobrir, há muito a ver e quero contar pra vocês. Encanta-me que se trate de uma personagem de criação coletiva (pois se mantém viva através da tradição oral) e pode refletir parte da psicologia humana, portanto particular, ao mesmo tempo em que é um bom entretenimento, com atos de bravura, romance, inveja e encantamento.
A Cobra Grande está ligada aos mitos de criação do homem e do mundo tal qual o homem sabe, com dia e noite, vida e morte, sujeito carregado de bem (conhecido) e mal (desconhecido); isso pode até soar maniqueísta, embora não seja tão simples assim.Na língua tupiela já recebeu três nomes,Mboiguaçu (Cobra Grande), Mboiuna (Cobra Preta) eMboitata (Cobra de Fogo).  Ao unir os contos dessa figura recolhidos por todo o Brasil, comecei a traçar um perfil do personagem.
A história dessa cobra se assemelha às narrativas de outras partes do mundo. Na África, conta-se que embaixo da terra, em seu centro, há uma cobra que circula o tempo todo, atrás de seu próprio rabo, dando voltas no mesmo lugar. Enquanto esta cobra continuar circulando, a terra prospera. Quando ela parar, tudo que é vivo morre.
Como símbolo, a serpente é oposta e complementar ao homem, está diretamente ligada à parte que desconhecemos. Interessa-me metaforizar, através destas histórias, como a serpente habita um sujeito enquanto pulsão de vida eseus ritos de passagem - da escuridão à luz e vice-versa.
Como parte prática desta pesquisa, trabalho com mais um ator em A Boca da Noite e MBOIOBM, uma performance que criei motivada pela pergunta que desejo deixar como refletida ou sentida de alguma forma no público: Como esta serpente circula dentro de mim?

Mostra do saber popular 2012 foto de Ana Paula Silva
JS – Quais os narradores de história que você admira? Fale um pouco da experiência de tê-los assistido.
RA - Sou grata por ter amigos contadores de história que admiro. É interessante que cada narrador, bom narrador, conta sempre de um jeito muito próprio. Só ele conhece a história desse jeito.
Jiddu Saldanha, conhece? O cara conta história com o corpo e, nas apresentações que eu assisti, sua narrativa tinha uma estrutura quase pedagógica,um disseminador de conhecimento.Parecia que, ao sair dali, as crianças estavam prontas para recontarem a história que ouviram.
Bernardo Zurk conta com uma aparente ingenuidade cômica. A gente não acredita que ele vai fazer aquilo. O que parece simples, na verdade está carregado de técnica (depois ele me mostra). E funciona de tal forma, que quando ele repete a história te parece simples de novo.
A Solange Penna conta de umaforma muito divertida,careteira e musical e diz que não é contadora (lorota né Solange). A Silvia Ferraz, do Baú que Conta, é capaz de desenrolar o fio da história por muito tempo mesmo, de tal forma que você fica com ela por todo esse tempo.
Agora, uma que não é minha amiga(mas eu queria muito conhecer) é a Dona Zefa. Assisti suas contações em um vídeo que acompanha o livro “Corpo a Corpo” de Zeca Ligièro - Professor da Unirio e Diretor Teatral - e também pude ouvi-lo falar dessa figura. Dona Zefa é contadora de fato, parece até que nasceu assim. Desde menina, ela conta histórias incríveis inspiradas na bíblia e na sabedoria popular. E conta como se os personagens e o causos fossem acontecidos ainda agora, como se fosse a história de um vizinho nosso. Parece uma daquelas vozes saídas das histórias coletadas por Câmara Cascudo, Simões Lopes Neto e outros.
Assistir essas pessoas em histórias diversas faz a gente conhecer um pouco delas. E daí me dou conta que quem me ouve contar também sabe de mim. Essa troca é linda, não deve parar.

Renata aguarda o momento de entrar em cena para o seu espetáculo de narração atual "A Boca da Noite" 2012 foto de wallace feitosa.
JS – Faça sua lista de filmes preferidos.
RA - São muitos outros fui descobrindo, mas os queme vêm mais frequentemente são: O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet; Cenas de um Casamento, Gritos e Sussurros e Persona, de Bergman; O Carteiro e o Poeta (Mássimo e a melhor explicação do que é metáfora), de Michael Radford; Tudo sobre minha mãe, de Almodóvar;La Strada, de Fellini; Humberto D, de Vittorio de Sica; O Casamento de Maria Braun, de Fassbinder; O Sopro do Coração, de Louis Malle; Como água para chocolate, Alfonso Arau; e vai por aí...

JS – O que você recomenda para as pessoas que estão começando a lidar com a arte de narrar histórias?
RA - Ler, ouvir, ver, sentir o que vem de fora a partir do que vem de dentro. Que a sua história seja singular. E não feche uma história, tenha a delicadeza de deixar uns espaços nela. Ela sempre pode mudar, pois cada público que te ouvir se encarregará de fazer sua contribuição ou novos espaços; e porque o que é verdade para nós também muda com o tempo.Ninguém é. Estamos sendo.

JS – Você se dedica à educação e ao teatro, como é se equilibrar no universo da pedagogia e o universo da arte, pra você?
RA - É muito difícil, pois estes ofícios se desencontram no tempo-ritmo que exigem da nossa vida. Encontram-se, porém,na ludicidade e no potencial transformador da sociedade que têm.
Tem muito suor e rotina no trabalho do professor. Atualmente, estetrabalho requer uma carga horária em bloco e, por isso, tem que se criar pausas, pequenos descansos para não virar tijolo ou argamassa da educação. Nestas condições,meu desafioé tomar a preparação pontual como processo.
E a arte precisa estar comigo a todo momento, na verdade, eu é que preciso estar com ela, respirá-la. Minhas apresentações duram de 40 a 60 minutos e são preparadas por muito mais tempoque isso, às vezes, o envolvimento com uma história leva anos.Já as aulas costumam ser preparadas por ¼ do tempo utilizado para se manifestarem. Pergunto-me sempre como unir estes universos.
Ser bipolar ou desenvolver dupla personalidade não resolve. Tenho lidado com isso respirando as duas coisas, entendendo-as como uma só: o movimento de transformação lúdica do real, com roteiros diversos adequados a cada público, tema, situação.Mas isto também é projeto de pesquisa e prática contínuo.

JS – Quem é Renata Andrade por Renata Andrade?
RA - Renata não é.  Já digo que ela detesta que a caricaturem com um único adjetivo, dá logo um montão ou dê nenhum. Dramática, alegre, insegura, criativa, inquieta, metafórica, capaz, doce, direta. Até parece bailarina, mas não é, não tem cara de atriz, nem de professora, menina, mulher, tia, amiga, filha. Prepotente propensa comunista que ganha o capital de cada dia, crê que nenhum desejo foi, nem é grande demais (pra ninguém no mundo). É a vida que diz isso enquanto se respira. Mas os outros causam um puta medo. Será que concordam?
Mas já que é Renata por Renata, digo que assumi a etimologia do nome, com o compromisso de renascer quando sinto que morri. Parece lógico. Que bom. Aceitar a morte para receber a vida. Os contos de fada nos ensinam que essa é uma forma de ouvir a intuição. E, sim, eu sou laranja e um pouco de lilás também.

Veja alguns vídeos com a participação de Renata Andrade.



Cordel do Amor sem Fim - Teatro Trupiniquim