OBRIGADO POR SUA HISTÓRIA

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sobre o Suicídio de Artistas! (Crônica)

Bárbara Morais, atriz e estudante

Chaplin, em sua biografia, conta dos artistas que começaram a se suicidar por volta de 1912. Artistas que ficaram desesperados quando perceberam que o surgimento do cinema fez nascer um conceito de mito, de fama, muito diferente do que estavam acostumados!

Tenho ouvido discursos semelhantes de vários colegas, alguns estão considerando a possibilidade do suicídio, por se julgarem inúteis e mal encaixados num mundo globalizado e rapido como é hoje em dia!
Há aqueles que estão migrando para outras profissões e passaram a acreditar que relamente não é possível viver de arte, principalmente nos tempos atuais, onde o conceito de mito e celebridade passou a exigir cada vez mais um apelo imediato e de total empatia com o público numa velocidade record.
A depressão, o medo, a angústia e a solidão tem sido uma constante na nossa profissão, sobretudo um sentimento de inutilidade e um certo vazio causado pela profunda falta de esperança. Há o medo de chegar à velhice sem qualquer cobertura do estado e/ou uma garantia de descanso depois de uma vida de trabalho.
Alguns sentem medo de perder seus companheiros ou companheiras por não conseguirem uma forma digna de prover o sustento e dar garantias para a família.
Na minha opinião, esses fantasmas sempre existiram na vida do artista. Se hoje vivemos uma pressão econômica maior, em tempos outros, era bem difícil lidar com o TABU da profissão. Hoje em dia o artista é depreciado e amado e é mais aceito na sociedade de consumo!
Não vejo o Suicídio como uma saída para ninguém, também acho que é saudável manter um tom otimista e trabalhar um pouco por dia para mudar a sua condição. É importante, no entanto, ter consciência de que o conceito de mito e poder hoje em dia é bem diferente da época do chaplin, mas as perguntas persistem:
Afinal, o que é ser, de fato, um bom artista?
O que é preciso para sentir-se feliz sendo artista?
                    
Jiddu Saldanha
03/06/2011

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Entrevista com José Bocca - Votorantim / SP

Conheci "Zé Bocca" No Simpósio Internacional de Contadores de HIstórias, onde nos encontramos praticamente todos os anos. Não são poucas as notícias da beleza e grandeza de seu trabalho. Um artista gregário e irmão, que batalha pela classe e está sempre presente com seu belo repertório.
Nesta entrevista vamos conhecer melhor sua filosofia de vida, de trabalho e sua visão sobre a arte de Contar Histórias.

Zé Bocca é ator, contador de histórias, coordenador do Núcleo de Contação da cidade paulista de Votorantim, percorreu diversas capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte, Florianópolis, Recife, Salvador e S. Paulo.
Vencedor do Festival de Humor de Sorocaba, na categoria Causos e Mentiras, no ano de 2007. Coordenador e apresentador do projeto Violas, Causos e Crendices, em Votorantim.
É vice presidente do Instituto Conta Brasil, que se propõe a discutir questões relativas à narração oral, em todo território brasileiro.
Ministra oficinas e palestras sobre a arte de narrar histórias, junto a órgãos municipais, estaduais, federais, empresas privadas e ONGs
Em parceria com o Instituto Cultural Aletria de Belo Horizonte/MG, atua monitorando oficinas junto ao grupo Encantadores de Histórias, formado por recuperandos do sistema APAC (Associação de proteção e assistência ao condenado).


Jiddu Saldanha – Como você vê o panorama da contação de histórias no Brasil hoje. Ouve um crescimento e um amadurecimento da expressão destes artistas?

José Bocca - Muito positivo, se percebe cada vez mais pessoas interessadas em narração de histórias. Seja no sentido de praticar, ser contador, como na condição de oportunidades de trabalhos.
Hoje em dia já é possível sobreviver de contar histórias. E é claro e evidente que há um amadurecimento e respeito aos contadores de histórias no Brasil e já existem sinais de movimentos organizados, para se pensar a arte de contar histórias, e a condição do contador de histórias. Como o Instituto Conta Brasil (www.contabrsil.org), uma ONG formada por contadores de todo Brasil.

JS – Que avaliação você faz dos eventos que hoje acontecem no Brasil, em que eles estão contribuindo para melhorar o contato com a leitura e a memória?

JB - Felizmente cada vez mais no Brasil existem eventos que congregam narrativas e narradores, alguns com uma longa carreira. Podemos citar o Conto Sete em Ponto, em Belo Horizonte, que ocorre há mais de dez anos, recebendo os mais importantes nomes do país. Em São Paulo, acontece bienalmente o Boca do Céu, recebendo contadores do Brasil de outros países, mas o grande catalisador, aglutinador e motivador de todo o movimento existente hoje é, sem dúvidas, o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, que desde 2002 de forma ininterrupta ocorre no Rio de Janeiro, e em 2010, também em Ouro Preto, oferecendo de maneira extremamente rica, trocas de experiências e vivências nos mais diversos sotaques, línguas e linguagens. Mas, contudo, é importante destacar que a tarefa da oralidade, da preservação da memória, deve ser de todos: contadores, pais, educadores.

JS – Na tua percepção o que uma pessoa precisa ter para ser um contador de histórias?

JB - Antes de qualquer coisa, ser um bom ouvinte de histórias. Depois, existem elementos importantes que podem favorecer uma boa narrativa. Mas, na minha visão, o importante é jogar com a platéia, o olho no olho é fundamental. Agregado a isso, uma boa bagagem, vivencia, é o que Regina Machado, no seu livro Acordais: Fundamentos Teóricos-Poéticos da Arte de Contar Histórias (Editora DCL) – aliás, obra importante pra qualquer contador que se preze – chama de “repertório de informações” do contador. Não basta ter umas histórias memorizadas, é preciso estar ligado no contexto, antenado com o universo a sua volta.
E por fim, acho que o que define um bom contador de histórias é: aquele que consegue transformar em imagens, na cabeça do ouvinte, as palavras que saem da sua boca.
JS – Que tipo de repertório você recomenda para os narradores iniciantes?

JB - Acho delicada essa coisa de recomendar repertório, o importante é trabalhar com aquilo que se identifique, que se sinta confortável. Adoro repetir em minhas oficinas uma frase de Einstein, o físico: É 10% de inspiração e 90% de transpiração. Não basta o talento, há que se praticar.

JS – Fale um pouco dos momentos vividos na tua carreira, o que te marcou, que lembranças valem a pena citar nesta entrevista?

JB - Bem, eu comecei como ator, lá pelos idos de 1989, meio que por acaso, sem saber o que fazer da vida. Um dia, uns amigos que faziam teatro junto ao Sindicado dos Metalúrgicos de Sorocaba, foram pra rua pra “falar” poesias e por coincidência nos encontramos, me convidaram pra participar, mas nunca havia feito nada além de “teatrinho” de escola ou igreja.
Porém de tanto insistirem decidi falar duas poesias que conhecia de cor: Como dois e dois são quatro (Ferreira Goulart) e Língua, um canto falado (Caetano Veloso).
Quando estávamos comemorando em um boteco, um diretor de teatro da cidade, me disse, apontando o dedo e me olhando na cara: “Bocão, você foi picado pelo vírus, não vai sarar nunca mais”. Até hoje eu não sei se era uma benção ou uma praga; mas o fato é que ele estava certo.
Depois de anos como ator, comecei a contar histórias, mas com todo o ferramental que eu trazia do tetro, em especial o teatro de rua, que era minha escola. Contava com adereços, figurino, maquiagem...
Até que em 2002, participei do primeiro encontro de contadores, em Porto Alegre, dentro do Fórum Social Mundial, e percebi que a força do contar histórias, estava na palavra e hoje tenho, como contador, um trabalho mais “limpo” e centrado na palavra oral.
Pois, como disse certa vez, numa entrevista pra revista Bravo, José Saramago, escritor português: “A verdadeira palavra, é a palavra dita. Pois a palavra escrita é apenas uma coisinha morta, que está ali, a espera que a ressuscitem”. 

JS – O que você lê? O que você gosta de ouvir?

JB - Leio de tudo que cair na minha mão, desde literatura de cordel a tratado de física quântica, bula de remédio, rótulos de embalagens. É claro que tenho minhas leituras preferidas. Gosto muito de poesias, sendo meu poeta predileto Paulo Leminski, gosto muito do russo Maiokoviski. Na prosa, adoro o trabalho do Ruben Fonseca.
Também leio muita teoria sobre a arte de contar histórias.
Quanto a musica, sou muito eclético, ouço desde canções e populares até jazz, blues e afins. Ultimamente estou mergulhado no cancioneiro caipira do interior paulista, me deliciando com Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho.

JS – Quem é Zé Bocca por Zé Bocca?

JB - Morador de Votorantim/SP, onde está enterrado meu umbigo.
Pisciano (do dia da mulher), e como bom peixe, morro sempre pela boca. Meus pecados são sempre por palavras, nunca por ato ou omissão.
É isso...



Principais eventos que participou como contador, nos últimos anos.

-          Feira do Livro Infantil de Fortaleza/ CE (2010)
-          Violas, Causos e Crendices – Votorantim/ SP ( 2003/ 04/ 05/ 06/ 07/08 /09)
-          Simpósio Internacional de Contadores de Histórias (2003/ 04/05/06 /07/08/0910)
-          Bienal do Livro de Fortaleza/ CE (2006)
-          Boca do Céu Encontro de Narradores e Narrativas – S. Paulo/ SP (2006/2008/2010)
-          Maratona de Histórias de Florianópolis/ SC (2005)
-          Festa do Livro e da Leitura de Aracati/ CE (2005)
-          Feira do Livro de Porto Alegre/ RS (2003/ 2004)
-          (Encontro Internacional de Contadores de Histórias 2003)


Conheça o Violas Causos e Crendices
evento coordenado por Zé Bocca


                  www.bocadehistorias.art.br
                 contato@bocadehistorias.art.br 
15 – 91289300 c/ Zé Bocca

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Lembrança de Divinópolis - MG

Divinópolis, uma bela cidade que fica a duas horas de Belo Horizonte, terra da poeta Adelia Prado e do professor e contador de histórias Juvenal Bernardes, foi lá que ministrei a oficina “O Gesto na Narrativa Oral”; um contato profundo com a arte de narrar histórias. Em Abril de 2011. Foram momentos inesquecíveis, “horinhas de descuidos”, como diria Guimarães Rosa, onde fluiu a verve mineira, o melhor da energia de narrar num estado que concentra o maior número de contadores de “causos” por metro quadrado do Brasil.
O grupo formado por pessoas apaixonadas por literatura e pela cultura popular e uma imensa curiosidade com a universalidade transcultural da arte de narrar.

Foram 3 dias de mergulho na essência de uma cidade “de passagem” como dizem os próprios divinopolitanos e que, no entanto, ao longo de sua história vem construindo uma auto estima voltada para seus costumes mais genuínos.

Valeu Divinópoilis, SEMPRE LEMBRAREI DE TI, BELA CIDADE!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Entrevista exclusiva com Marciah Fonseca - RJ


Marciah é uma amiga querida da cultura popular, do jongo e da ciranda. Atua em Cabo Frio e em Arraial do Cabo. Dedica-se à pedagogia, à solidariedade, ao amor e ao resgate de nossas raízes. Entrevistá-la era um sonho antigo e que se realizou agora, por força dos orixás.



Jiddu Sladanha - Como foi o teu despertar para a cultura do jongo?

Marciah Fonseca - Comecei desde pequena... por incrível que pareça, fiz balé clássico durante muito tempo, curso profissionalizante da escola de dança do RJ, neste curso havia muitas disciplinas, uma delas era folclore nacional prático e teórico, uma outra era Afro (contemporâneo e de orixá). Foi aí que eu entrei em contato com a cultura brasileira, e me identifiquei com a cultura do negro, através da dança. Conheci o jongo e outras danças e amei!!! Os anos passaram e eu fui para a faculdade de educação física (UFRRJ), tive contato com vários grupos de danças folclóricas e de cultura popular nas minhas andanças acadêmicas... como eu moro em Santa Teresa, bairro vizinho à Lapa, eu conheci o mestre Darci, comecei a escutar muita coisa de samba, onde o jongo ou caxambu é sempre lembrado. Foi quando em conheci uma galera do jongo da Serrinha/Grupo Brasil Mestiço e o Pau da Graúna... e com eles o jongo, lundu, ciranda, coco, etc. Foi aí que despertou a vontade, com significado bem claro, de dançar e trabalhar com cultura popular brasileira.
JS – Qual é o momento do jongo que mais realiza a tua alma e teu coração?
MF - Quando to na roda e me transporto para os tempos de senzala/quilombo, me transporto para um momento mais próximo da tradição e costumes do jongo.
JS – Fale um pouco do trabalho que você desenvolve com crianças e adultos.
MF - Fiz concurso para Educação Física para a rede de Cabo Frio, passei. Na loucura de ir e vir do Rio, gastando muita grana de passagem, resolvi ir até a sec. de educação de Cabo Frio pedir hora extra, com o projeto na mão de cultura popular brasileira na escola. Gostaram e fui enviada a única escola integral do município ( pelo menos até hoje). Essa escola tem aulas no contra turno, de diversas modalidades artísticas, culturais e esportivas. Lá ministro aulas de Danças populares brasileiras e Capoeira (projeto GRIOT Construindo saberes) e estou lá desde setembro de 2008.
JS – Como você vê a aceitação da cultura negra dentro das escolas por onde você passou/passa atualmente?
MF - ‘Negada’ pelos próprios negros, inclusive. Tudo é chamado de “macumba”! Tudo! Qualquer batuque é macumba! Qualquer música que não seja louvor ou funk é discriminada. Mas apesar disso, as crianças adoram... e a atividade segue crescendo na escola. A gente consegue perceber isso até mesmo quando elas estão indo pra casa, vão fazendo o tabiá; na fila, fazem tabiá; no recreio, fazem o tabiá, até na porta da igreja evangélica,fazem o tabiá rsrs. O samba de roda também é muito querido entre as crianças. E agora com o maracatu e o maxixe estamos fazendo cortejos, e bailinhos.
JS – Na tua opinião, o que você acha que está faltando para o Jongo ter mais aceitação no interior do estado do Rio de Janeiro?
MF - Não é em todo o interior do Rio de Janeiro, todo encontro de jongueiros a maioria dos grupos e comunidades são do interior, poucos são os jongos ditos “urbanos”... em qualquer lugar o “velho” e o “novo” travam a questão é mais grave, na minha vivência, é na região do lagos. N aminha opinião falta TRADIÇÃO.
JS – Cite os jongueiros e rodas de jongo do Rio de Janeiro e interior que você gosta.
MF - FUZUÊ DE ARUANDA (UNIÃO JONGUEIRA DA SERRINHA), BÁRBARO (mestre), RODA DE JONGO DO SAMBA DO CHAPÉU, JONGO BANTO, JONGO PÉ DE AMENDOEIRA (Niterói), ASA BRANCA (mestre), RIOS (mestre), JONGO DA SERRINHA, JONGO DA LAPA (coletivo da jongueiros), ai meu Deus.. são tantos... Gostava muito da roda das três Marias... Eu gosto de roda pé no chão!
JS – Quem é Marciah Fonseca por Marciah Fonseca?
MF - Empreendedora na vida.
VÍDEOS:








quarta-feira, 13 de abril de 2011

Entrevista exclusiva com o escritor e contador de histórias - Almir Mota, CE

Foi uma grande experiência para mim, conhecer o escritor e contador de histórias Almir Mota, um cearense bem chegado, prosador, e grande incentivador da nossa atividade pelo Brasil. Bem vindo, amigo! Diga lá...

Escritor de literatura infantil com 16 livros publicados editor da Casa da Prosa

Membro do Colegiado Setorial do Livro e Leitura do MinC, instância do Conselho Nacional de Política Cultural

Contemplado na Bolsa Funarte de Circulação Literária 2010
Ganhador do Premio Literatura para todos -MEC 2008

Jiddu Saldanha – O Cearense é considerado um contador de histórias nato, a que você atribui este forte traço cultural?

Almir Mota - Na minha família, principalmente por parte do meu pai, todos adoram contar um bom causo. Era sempre assim quando eu era menino, pelos seis anos de idade ouvia muito minha Avó a Dona Canela (canela aqui é aquela planta que se faz chá) ela contava todo tipo de histórias rimas ou não. Então acredito que assim como eu muitos outros cearenses ouviram histórias na infância.

JS – Como foi que a arte de contar histórias surgiu na tua vida?

AM - Como contador de histórias foi há uns 12 anos quando estava lançando o meu primeiro livro infantil, O Cavalinho Amarelo. Daí pra cá fui só melhorando o repertório de histórias e criando as minhas próprias.

JS – O que a arte de contar histórias acrescenta na vida das pessoas em geral?

AM - Muita imaginação, eu acho. Mas também oferece a chance de conhecer mais daquilo que esta nas pessoas. Pois os contadores são esta espécie de gente-livro que vive se mostrando para o mundo.

JS – Que tipo de “talento especial” é necessário, na tua opinião, para ser um contador de histórias?

AM - Precisa aprender ouvir, isto já um começo. Acho-me um bom ouvinte.

JS – Você acha que, no Brasil, já existe o reconhecimento do profissional contador de histórias? Qual o impacto disso, na tua opinião?

AM - Infelizmente ainda não temos, mas o contador de histórias como profissional já é citado até na lei do magistério. Precisamos nos unir mais. O Conta Brasil (Instituto de Contadores de Histórias do Brasil) pode ser uma boa ferramenta de luta junto ao congresso nacional para regularizar a classe.

JS – Quem são os artistas desta área que você costuma apreciar?

AM - Vixe. São muitos meu filho! Meus amigos todos contadores. Mais aqui no Ceará tem uns velhos de setenta e lavai pedradas que contam divinamente. Nós descobrimos no projeto da Júlia Barros, o “Lamparina de histórias”, entre eles temos seu Manuel Sivestre da cidade de Aquiraz.

JS – O que você recomenda para os jovens que querem se dedicar à arte de contar histórias?

AM - Escutem os mais velhos. Ouçam a voz, o gesto e o olhar de quem carrega as histórias por toda a sua vida. Leiam bastante, o bom narrador precisa saber o que esta contando para as pessoas.

JS – Quem é Almir Mota por Almir Mota?

AM - Um cearense esperto que nem mineiro, apressado feito paulista, manso como carioca e batalhador como todo brasileiro.

Para navegar no site de Almir Mota clique aqui

Conheça o blog de Almir Mota clicando aqui

quinta-feira, 17 de março de 2011

Entrevista com Laerte Vargas.

Tive o prazer de assistir Laerte Vargas contar histórias em 3 ocasiões, durante o "Simpósio Internacional de Contadores de Histórias". Sua forma de contar é simples, direta e impactante. Laerte é um mestre que estimula quem queira praticar esta arte milenar; através de suas oficinas e cursos. Nesta entrevista vamos conhecê-lo melhor.

Laerte Vargas é Contador de Histórias, Facilitador de Oficinas e Terapeuta Corporal.

Desde 1994, viaja o Brasil ministrando oficinas e prestando assessoria a grupos de contadores de histórias e programas de leitura. Atuou no Proler, Leia Brasil, Paixão de Ler e diversas Bienais do Livro, além da participação como especialista na arte de contar histórias em seminários e jornadas de leitura.

Ministrou oficinas e implantou núcleos de contadores nas empresas: Furnas, Sulamerica e Unimed-Rio.

Foi o fundador e dinamizador do Grupo Latão de Histórias da Comunidade do Morro Santa Marta.

Atualmente, coordena a Spaço dos Contos/RJ, o primeiro centro de formação continuada de contadores de histórias do Brasil.

Jiddu Saldanha - Como você iniciou sua carreira de contador de histórias?

Laerte Vargas - A primeira oficina de que participei já, de cara, me deixou muito instigado a continuar. Na verdade, ainda tinha o olhar do ator e o pouco investimento necessário para contar histórias me interessou mais como uma ferramenta profissional do que como uma opção de linguagem. Mal sabia eu que o bichinho do contar já havia me fisgado. Logo reuni um grupo de pessoas para que começássemos a contar e a formar um repertório. Felizmente encontrei algumas instituições que abriram as portas para o meu trabalho, que desde o início foi remunerado. Dessa forma, o ofício foi tomando cada vez mais espaço em minha vida e me deu retorno imediato para a compra de livros e impressão de materiais de divulgação. Trabalhei um ano direto com o Museu de Folclore Edison Carneiro, participando de festivais de contos populares, material que se tornou o grande nicho de pesquisa de repertório para mim. Depois disso, os convites se sucederam e não parei mais.

JS - Na tua opinião, existe alguma relação entre o fazer teatro e o contar histórias?

LV - Existe uma diferença que, para mim, é fundamental: o ator representa; o contador de histórias apresenta. Quando o narrador começa a se sobrepor à história e necessita de muitos elementos para evocar as imagens que ela suscita, aí deixou de ser contação e passou a ser outra coisa, bem diferente. Esse papo de contação teatralizada é conversa pra boi dormir. Sempre digo que contar histórias é um exercício de simplicidade e generosidade. Na maioria das vezes, os elementos cênicos são desnecessários, pois eles acabam engolindo a história e o pretenso contador, com sua vaidade exacerbada, vai passando como um trator por cima do conto. Assim, o que resta é apenas um exercício narcísico. É importante dar espaço para que os ouvintes criem suas próprias imagens: esse é um dos maiores trunfos da contação frente à tecnologia atual. A imaginação anda preguiçosa, pois tudo vem muito pronto e arrumadinho. A criança, principalmente, precisa muito dessa ginástica imaginativa.

JS - O que mais te inspira a seguir nessa carreira?

LV - Propagar a ideia de que qualquer um pode contar histórias. A espetacularização da contação tira essa possibilidade, dá a sensação de que só aquela tribo que cursou a escola “TAL” ou outro curso de teatro, que fez aulas com a fono da moda ou que fez um trabalho corporal mirabolante pode realizar. A intenção primeira das minhas oficinas é que todos saiam instigados a contar. Sempre existirão contadores para grandes espaços e contadores para pequenas salas. E todos eles são fundamentais à sociedade. Cada um com o seu tempo, o seu ritmo, o seu olhar único e inimitável. Contadores são como um oásis na aridez das relações humanas de hoje em dia.

JS - Cite algumas histórias que você considera fundamentais para o desenvolvimento humano.

LV - Todas as histórias tradicionais (a maioria oriunda da tradição oral) são fundamentais para o desenvolvimento humano. Basta investigarmos as entrelinhas. A primeira chamada do meu blog é: “Aqui as historinhas são coisa séria”. Acostumou-se a ver esse material como uma coisa descartável e/ou banal, mas elas tratam, em uma linguagem metafórica, dos percalços da nossa trajetória. Esses contos nos conduzem a reflexões profundas acerca das nossas decisões e padrões de comportamento. A vastidão desse material é impressionante: encontramos contos que falam de incesto, homossexualidade, compulsão, enfim, para cada questão do ser humano existe uma história curativa. Acho que a Clarissa (Pínkola Estés) disse alguma coisa assim.

JS - Como você vê o panorama da contação de histórias no Brasil de hoje?

LV - Existem profissionais que desenvolvem pesquisas primorosas, mas a contação virou uma moda que pode acabar transformando a arte de contar histórias em algo extremamente descartável como o batom da estação. Às vezes, quando recebo as programações dos seminários e encontros de contadores nos estados e municípios fico pesaroso, pois constato que os contadores de causo de cada lugar são muito pouco prestigiados. Preferem pagar passagem aérea, hospedagem e alimentação para o/a incrível contador/a de histórias que conta em parada de mão com uma banana enfiada no ouvido. Detalhe: ela conta de costas para o público. Cada estado tem um acervo riquíssimo de histórias populares e, certamente, tem quem as conte. E aquele jeito de contar que encanta é que é o jeito certo de contar. Que vivam e sobrevivam as diferenças!!!

JS - O que você recomenda para os jovens que queiram conhecer melhor esta forma de expressão artística e se profissionalizar?

LV - Ouvir muitas histórias e ler toda a obra dos irmãos Grimm. Ahhh, e não ter pressa nenhuma em se profissionalizar...

JS. Quem é Laerte Vargas por Laerte Vargas?

LV - Um menino que tem medo do boi da cara preta.

Para conhecer melhor o contador de histórias Laerte Vargas clique aqui

Para obter informações sobre as oficinas de Laerte Vargas clique aqui


sexta-feira, 11 de março de 2011

Moacyr Scliar por Edmílson Caminha

Conheci Edmilson Caminha na cidade de Itabira - MG terra do poeta Carlos Drummond de Andrade, nos anos 90 do século passado. Edmilson é um mestre da palavra e da oralidade. Um narrador autêntico em todos os sentidos. Um "Mestre Griot" no melhor estilo brasileiro! Em Itabira, todos nós, entre entusiastas e poetas ficávamos sempre por perto quando ele abria o verbo e tecia narrativas sobre os grandes escritores que o Brasil tem. Esta semana, recebi este belo texto em que Edmilson Caminha, comenta a entrevista que fez com Moacyr Scliar em 1987

O DERRADEIRO GALOPE DO CENTAURO

(Edmílson Caminha)

Em Moacyr Scliar, tão notável quanto o escritor ilustre era o ser humano digno, a pessoa ética, o cidadão exemplar que mereceu, ao longo da vida que lhe foi dada viver, o afeto dos amigos e o reconhecimento dos leitores. Entrevistei-o no ano de 1987, em Porto Alegre, quando me recebeu na Secretaria da Saúde, onde trabalhava como médico sanitarista. Publicada primeiramente no Diário do Nordeste, de Fortaleza, a conversa também se acha no meu livrinho Palavra de escritor (Brasília : Thesaurus, 1995). Em carta que gentilmente me enviou, o entrevistado faz elogios ao texto, e diz que providenciou cópias para entregá-las aos jornalistas e estudantes que o procuram.

À pergunta sobre como a condição de judeu se revelava em sua obra, Scliar respondeu, com a inteligência e o saber que todos admirávamos:

— Os povos da antiguidade legaram ao mundo grandes monumentos, como as pirâmides, os templos, importantes obras de arte; o povo judeu nada deixou a não ser um livro, mas um livro que condicionou o destino de milhões de criaturas neste nosso mundo. Essa veneração pela palavra escrita, pelo livro de maneira geral, na minha família era muito acentuada: embora pobres, nunca nos faltou, a mim e aos meus irmãos, dinheiro para comprar livros. Desde cedo fomos induzidos ao hábito de escrever, tanto mais que a minha mãe era professora primária, do próprio colégio onde eu estudava, e me estimulou muito a escrever. Além disso, no contato com os imigrantes ouvi muitas e muitas histórias interessantes.

Uma delas foi, certamente, a que lhe contou o pai José, imigrante russo chegado ao Brasil na década de 1920. Ouvi-a narrada por Moacyr no ano passado, quando juntos participamos da Feira do Livro de Guarulhos:

— A viagem de navio, longa e desconfortável, foi um pesadelo. Ao desembarcar com a família, a aparência daquele menino de oito anos devia ser péssima, pela pobreza dos trajes, pela fome estampada no rosto e pelo medo que lhe dava o país estranho em que punha os olhos pela primeira vez. Sensibilizado pela expressão de sofrimento, um homem se aproxima e lhe entrega... uma banana. Era o que podia oferecer, antes que o pequeno desfalecesse e fosse de encontro às pedras do cais. Ocorre que a generosidade trouxera um problema para a criança: que diabo de fruta era aquela? Como comê-la? Se fosse maçã, uva, pera, cultivadas nos campos da Rússia... Mas aquela coisa amarela, meio curva, que jamais vira nem desenhada em livros? José olhou, examinou e, afinal, decidiu: começou a descascá-la, jogou fora o que lhe pareceu um caroço meio mole... e comeu a casca!

Muitos anos depois, Scliar ouviria do pai a conclusão que lhe soava como a moral da história:

— Sabe que comer casca de banana não é assim tão ruim como a gente pensa? Até que dá pra engolir, principalmente quando se está com fome...

Essa, a experiência de vida e a sabedoria humana que o escritor converteu em ficção da melhor qualidade, a exemplo do romance O centauro no jardim. Em 27 de fevereiro, aos 73 anos, Moacyr Scliar, com a discrição e a elegância que lhe eram próprias, cavalgou pela derradeira vez o centauro, mito que tanto o fascinava, pois, metade homem e metade cavalo, é a um só tempo realidade e fantasia, as duas grandes matérias de que se faz a literatura. Partiu a galope rumo à eternidade, onde campeará para sempre nas coxilhas celestes, um suave e luminoso pampa que não tem começo nem fim...