Primeiro estrangeiro a ganhar o Gran Prêmio Yolanda Hurtado, no Chile, em 2014, por serviços prestados ao mundo da arte e sua contribuição para o enriquecimento humano.
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Foram alguns poucos momentos em que eu e Bárbara de Castro (ou Bárbara Tracajá, Bárbara do Amapá, Bárbara Vento... tantos nomes viscerais) nos cruzamos pelo cotidiano artístico do Rio de Janeiro, mas desses encontros permaneceram a troca de afeto e respeito. Com o tempo fui percebendo estar diante de uma narradora. Uma atriz que sabe lidar com as nuances dos silêncios e sons das palavras. Segue aqui este bate papo com ela.
Bárbara de Castro
Atriz, diretora, produtora cultural, arte educadora, fundadora do grupo musical Paideguará. No teatro, participou da Semana Cultural em Caiena, Guiana Francesa. Cursou a Escola de Teatro Martins Pena e o Instituto Tá Na Rua, sob direção de Amir Haddad, no Rio de Janeiro. Atuou e participou da criação do roteiro do espetáculo Dar Não Dói, O Que Dói É Resistir, apresentado nas Lonas Culturais do Rio de Janeiro, no Circo Voador e no Largo da Carioca. Atuou nos espetáculos: O Castiçal – Giordanno Bruno - Teatro Carlos Gomes (RJ). No cinema atuou em Cleópatra, longa de Julio Bressane; República Tiradentes, de Zózimo Bulbul; Ou ficar a Pátria Livre, de Silvio Tendler; Operação Morengueira, de Godô Quincas e Chico Serra; dirigiu Pistoleira da Liberdade, lançado no Femina 2011, no Cine Odeon. Recentemente, recebeu o prêmio Interações estéticas da Funarte com o projeto Diário Tucujú, em que coordenou oficinas de teatro e vídeo performances no MIS/AP.
Concentração xamânica no universo da Performance!
Jiddu Saldanha – Que diferenças básicas culturais você percebe que existe entre os brasileiros do sudeste e os da Amazônia? Como foi pra você se adaptar a essas diferenças?
Bárbara Castro - O norte é quente! As pessoas sãos quentes, a maneira de vestir, falar, comer,é toda uma mistura de muitos lugares. A Amazônia apresenta um quadro de esperança e teme a muitas batalhas políticas! O sudeste porém tem suas peculiaridades e suas belezas entranhadas na história. Cheguei no Rio em pleno carnaval e senti um choque de realidade, afinal nunca tinha visto o carnaval da "globeleza" tão de perto.
Na região norte o povo assiste Tv assim como assiste a própia vida!
Existia em mim um pouco desse deslumbre nortista, em que tudo que se ver nas telas é o real, esse deslumbre foi sendo quebrado a cada dia. Conheci o grupo Tá na Rua quando tinha apenas uns 15 anos e ai logo logo percebi do q se tratava a verdadeira realidade, do povo, do país, das questões sociais e culturais...isso me interessou! Pude participar também de algumas novelas, mini series, e filmes através do grupo. Contribuindo e me distanciando cada vez mais da ilusória dinâmica da Tv para uma possível e nova arte através do cinema e do teatro. Nada me trazia tanto prazer quanto o contato nas ruas com trabalhadores das artes e de outros ofícios...desenvolvendo oficinas em lonas culturais, escolas públicas, teatros e praças. isso tudo fez com que eu pudesse vivenciar e assistir essas diferenças de culturas tão próximas e tão distantes ao mesmo tempo.
JS – Você considera que as pessoas nascem artistas ou se tornam? No teu caso, o que é mais provável?
BC -Todas as pessoasnascem artistas, algumas reconhecem antes!
Nasci em Altamira no Pará e aos 10 anos de idade fui com minha família morar em Macapá, no Amapá. Lá estudei e conheci a arte de fazer teatro desde de muito pequena já havia sido tocada pelo circo e pela música, vindo de família nordestina sempre de olhos e ouvidos abertos a cancioneiros e cantigas populares. Meu pai seu Chico Rocha Através da sua jornada de trabalhador brasileiro autônomo e artista, sempre incentivou a arte a seus quatro filhos .Eu aprendiz dele e dos mestres que a mim se apresentavam pude observar que a arte num país como o Brasil é algo intrínseco, está relacionado ao nosso "Macunaimismo" a nossa preguiça é alegre e nessa alegria há muita música e improviso. Nesse país ser artista é algo independente das nossas escolhas!
No palco.
JS – Fale um pouco da tua experiência como atriz, diretora e narradora como foi que você juntou essas formas artísticas?
BC -"Melhor do que ser atriz é ser humano"Tive uma longa caminhada pra descobrir essa frase. Achava que tinha algo no artista de especial, e tem, mais é algo tão igualitário que não depende somente dele. Vai muito além dos personagens e personas...
Depois de encenar, criar e desenvolver-me como atriz fui em busca da raiz. Essa raiz mostrou-me novos rumos de pensar a arte. Assim tive a oportunidade de conhecer no interior da Bahia os Griôs e contadores de historia, que já havia conhecido no Amapá através dos mestres do Marabaixo , uma verdadeira universidade do saber oral. Essa nova fase expandiu o poder de comunicação e as potencialidades da arte em mim. A partir daí tive mais autonomia de poder cantar os poemas que escrevia e as músicas do norte. Criando assim o grupo musical Paideguará composto por artistas nortistas que através da musicalidade amazônica puderam expandir seus trabalhos e realizar uma interação verdadeiramente brasileira. Pude juntar o velho Griô ao novo olhar através da música que é a grande linha de todas as artes!
JS – Como você vê o Brasil hoje em relação a quando você começou a viajar, as coisas mudaram pra melhor? Você sente que tivemos mudanças na vida artístico-cultural?
BC -As mudanças são grandes, o Brasil deixou de ser o país do futuro pra perceber que é o próprio presente terrestre. Acredito que de uns 10 anos prá cá o Brasil era um anão que se levantou. Era um país subdesenvolvido, que acordou. Artisticamente temos novos caminhos.
Os pontos de cultura são meios de interligar esses artistas e essas redes sociais, a lei Griô nacional tbm é uma esperança. Se estivermos mais atentos para essas novas caminhadas das artes podemos nos organizar melhor e deixar de egoísmo.
Atualmente sinto que cada um tem seu projeto debaixo do braço e corre atrás do edital, e tem que conhecer alguém influente ou algum diretor que assine seus trabalhos. Por que não nós mesmos ? pq ainda estamos no cabresto? Essa mudança não depende somente dos artistas, mas do governo. Isso infelizmente ainda acontece, assim como paralelamente tbm acontecem bons festivais, bons encontros e grupos que se organizam e de alguma forma gradualmente ajudam romper artisticamente com o poder e suas falcatruas. As vezes é mais teatral a busca da grana do que da própria arte.
Cinema: Cangaceira Pistoleira.
JS – Você acha que o brasileiro do sul e do sudeste tem informações claras do que acontece, de fato, por lá? Essas informações não são distorcidas? Como você vive esta realidade no seu coração?
BC - Quando cheguei no Rio de Janeiro me perguntaram:
- Você é da Bahia?
- Não! eu sou do Pará.
- AH! Sabia que era por alí por perto!
Percebi que realmente muitas pessoas não tem consciência de tão imenso que é o nosso país e a sua diversidade cultural chega a ser muitas vezes mágica. Só pude enxergar a Amazônia de outro prisma quando saí dela. o Brasil são vários países. Pode-se encontrar cidades ao lado que tem uma vegetação, um modo de se alimentar de falar de andar de abraçar de dançar completamente diferente um do outro. Nós não temos esse olhar aberto pra percebermos os valores que temos, as potencialidades encontradas em nossos riquezas naturais são primordiais ao planeta, e principalmente pro desenvolvimento do Brasil e de nós brasileiros que aqui estamos. Um estado como o Pará que é um pulmão no meio da Amazônia, tanta energia eólica e solar, e cada vez mais são hidréletricas que se espalham desviando rios e o destino de etnias nessa região.
JS – Quem são os artistas que te inspiraram e que você troca no sentido de ampliar e intercambiar o teu saber pessoal?
BC -Gosto dos Cineastas surreais,dos atores com encanto cênico, dos diretores generosos, dos poetas sombrios, dos professores arteiros.Os que mais me inspiram são aqueles que mostram um pouco de dentro, do mundo do artista para o universo, sua arte é universal, aqueles que lutam como operários não somente como artistas. Cantam não somente para as gravadoras, programas, rádios ou shows, mas cantam para as estrelas, gosto dos conectados, aqueles que estão a beira de um novo verso na simples contemplação da noite. A Inspiração é a chama da vida, sem ela a arte se repete! E a vida morre!
Cada vez mais o intercambio da arte popular com os novos artistas vem trazendo a tona um olhar ancestral, a ciranda,o religare. Durante um bom tempo eu achei que os atores não precisavam mais dos diretores, que a cada dia ficavam mais velhos e repetitivos.
Tive a oportunidade de trabalhar com alguns grupos jovens de teatro que dependiam não somente da direção mas da harmonia dos atores e seus egos livres na criação, realmente não me senti bem! Entrava e saía desses grupos assim como uma aluna que não se adapta a escola particular. Me sentia velha! Sentia uma enorme saudade dos dinossauros do teatro, dos mestres, dos anciões , dos coroas...enfim da sabedoria vivida, do ego lapidado pelo tempo. E agora me encontro nessa busca quase espiritual da arte, voltei a assistir o Zé Celso, Amir Haddad e até Boal tive a oportunidade de conhecer e aprender bastante, interagindo meu saber pessoal ao do mundo inteiro através da prática e da oralidade desses mestres.
JS – O que você diria para os jovens que estão iniciando uma vida artística hoje? Que sugestões de repertório, etc...
BC -"Te Liberta" é a frase que digo a todos os jovens de todas as idades...
Existe no mundo de hoje muitos "jovens velhos" que se sentem os donos da verdade, acham q pintar a cara ou tirar a roupa já é uma grande performance, usar objetos cênicos de época, falar outras línguas, apagar a luz, comer coisas estranhas em cena , sofrer, se debater, agredir, se melecar,intrigar,sentir dor,chocar, enfim tudo! menos interagir! Estes estão todos equivocados!
Essa pseudo nova arte está matando o ato de Atuar ... A arte é ampla, mas nela cabe a leveza da ligação, a sagrada ligação do circo místico, etéreo e uno. Já vi muitos jovens dizendo: "ah o público não precisa entender"!
Aquilo me dava uma aflição!
Como se o público fosse uma cobaia do ego do ator que não dá o devido valor a grande ciranda dessa missão artística. Mal sabem eles que o público sabe e ver sempre mais do que o próprio ator, que nada mais é do que um místico, um doutor das almas.
JS – Quem você gosta de ler, o que você lê? O que você recomenda para leituras?
BC - Gosto muito dos poetas! Drummond, Bandeira e Gullar E delas ... Adélia Prado, Clarisse Lispector, Cecília Meirelles e Florbella Espanca. Do mais curto ler bastante: Berthold Brecht, Jairo ferreira, Abdias do Nascimento, Josué de Castro, Eduardo Galeano,Gabriel García Marquez, Jorge Amado,Graciliano Ramos, Oswald Andrade, Carlos Castaneda.
Gosto muito do poder de síntese das charges.
Minha leitura é um pouco solta nas coisas que vou sentindo e vivendo. As vezes leio a bíblia e acho um pouco machista aí páro, depois retomo novamente. Deus sempre me atraiu! Descobri o mundo do Atlantes, fiquei fascinada! Também ganhei um livro muito bom, Tagore traduzindo o poeta Kabir, adorei! Atualmente estou numa onda das Ciências Sociais, história, geografia, astronomia e física. Descobri que não sabia nada do que eu achava que sabia. Meu mundo caiu e eu gostei! Pelo menos quando caiu eu tinha um livro nas mãos.
"Ler é a melhor maneira de escrever"
JS – Quem é Bárbara Castro por Bárbara Castro?
BC - Depois deassistir pela terceira vez o espetáculo "Os Sertões de Euclides da Cunha", através do Grupo Oficina ..recebi este poema! ( com todo respeito ao grupo e ao Zé)…
EVÓ AN?
Olhei para Dionísio
e disse ...Precisa tudo isso? Acalme-se
Naquele momento concordava eu com Penteu.
Jamais me imaginei cansada dele...
Mas na real os atores gastam seu Deus...
Agora há um Deus
exausto de ser chamado em vão
Em nome de um vinho barato
E de orgias que contemplam flashs e egos...
Quero eu o bonde das parteiras...
O exército da jurema...
A macumba carioca da gema Bahia
E digo não aos balangandãs contemporâneos cheios
de petrobrás quando descem as cortinas...
Que venham os novos...que nasçam gregos ...ou paraíbas
mas do útero virgem...
Limpe meu pensamento!
E Perdão senhor Deus do vinho
...Eu me retiro...
antes que me apunhale com seu bastão...
Bastão ...a muito tempo ...sagrado...
Hoje...imaginado na superfície
de homens comuns que juram serem DEUSES
por estarem microfonados...
(Bárbara Castro)
Para navegar no blog de Bárbara de Castro - Clique A Q U I Quer ver o Port-fólio da atriz? - Clique A Q U I
Sou fã de carteirinha da Ana, todos os eventos que coincide de estarmos juntos, sempre dou um jeito de assisti-la. Ela domina técnicas impressionantes de narração e deixa o público extasiado. Seu trabalho é meticuloso e feito nos detalhes. É um prazer recebê-la no meu cantinho virtual.
Conheça seu trabalho:
Foto: Flavio Moraes
Ana Luísa Lacombe é atriz desde 1980. Há nove anos vem se interessando e pesquisando o trabalho de narração de histórias associando-o ao teatro. Ganhou vários prêmios com estes trabalhos: Prêmio APCA de Melhor atriz 2003 com “Fábulas de Esopo”, além de três indicações para o Prêmio Coca-cola (melhor texto, melhor atriz e melhor espetáculo); Prêmio APCAde Melhor Atriz 2006 e também Prêmio Femsa Coca-cola de Melhor atriz com “Lendas da Natureza” e ficou entre os três finalistas neste mesmo prêmio como Melhor espetáculo. Seu último espetáculo “O Conto do Reino Distante” foi ganhador do Edital de Montagem Inédita do PAC 2007 da Secretaria de Estado da Cultura e do Prêmio APCA de Melhor Atriz 2008, além ser indicado para o Prêmio Femsa Coca-cola para Melhor texto e melhor Atriz . Em 2010 O projeto Trilogia Faz e Conta comemorando 30 anos de carreira da atriz colocou em temporada seus três espetáculos e um ciclo de palestras oferecido para várias instituições de São Paulo capital e interior. É curadora do projeto “Sipurim – Hora da História” do Centro da Cultura Judaica. Dona da Casa do Faz e Conta em São Paulo, espaço destinado a cursos e apresentações de narração de histórias. É uma das fundadoras do Centro de Reflexão do Teatro para Infância que promove encontros e eventos para refletir sobre esta arte.
***
Foto: Flavio Moraes
Jiddu Saldanha – Como foi que você começou a se interessar pela arte de contar histórias?
Ana Luiza Lacombe - Vendo uma amiga minha bailarina e atriz contando, a Leila Garcia. Era tão encantador que fiquei com aquela idéia na cabeça. Isso foi 1994. Abri uma pastinha sobre este assunto no meu computador e já dei o nome de “Faz e Conta”. Eu tinha vontade de juntar minhas habilidades de aderecista, artista plástica, atriz com a arte de contar histórias.
Eu estava cansada de trabalhar em grupos de teatro e queria experimentar algo mais autoral. Queria escolher os temas sobre os quais desejava falar. Num grupo temos que chegar a um consenso e nem sempre o espetáculo escolhido para ser montado refletia o meu desejo. Queria ser dona do meu discurso. Mesmo o texto não sendo meu, quando eu o estudo eu me aproprio dele. Ele passa a ser meu.
Mas isso só começou a acontecer em 2002. Entre o desejo e a realização passaram-se 8 anos!
JS – Quando você escolhe a história que vai contar, fica envolvida demais ou se distancia para lidar melhor com o tema?
ALL - Primeiro me envolvo com a história, preciso adorar a história e me emocionar com ela, rir com ela, torcer com ela. Mas na hora do estudo técnico há que se ter um distanciamento.
Sou bem virginiana no meu modo de trabalhar. Metódica e estudiosa. Leio o texto várias vezes em voz alta para perceber sua musicalidade. Depois coloco o texto em arquivo de Word e vou trabalhando um pouco na frente do computador, mexendo nele, moldando-o à minha voz. Vou escrevendo e lendo em voz alta para sentir a melodia. Quando chego num resultado satisfatório começo a fazer o trabalho de estudo mesmo, divisão de cenas, curva climática, etc. Quando termino isso, já estou bem dentro desta história. Aí começo a falar sem olhar para o texto, tentando soltar a língua. E aí é repetir, repetir, repetir...
JS - Todo contador de história sempre tem histórias pra contar sobre sua experiência de campo, gostaria que você relatasse alguns momentos marcantes da sua carreira.
ALL - São muitos. Contar histórias propicia situações maravilhosas e emocionantes.
Meu primeiro momento solo foi marcante. Logo que comecei a contar, me sentir sozinha na cena... Sempre fiz teatro de grupo e trabalhei em equipe. Sentir que a bola estava exclusivamente na minha mão era, ao mesmo tempo, temerário e desafiador. Manter todos os olhares interessados em você é difícil... Mas tudo se aprende nesta vida. Hoje estou bem confortável neste lugar.
Trabalhei durante dois anos contando historias em hospitais e um ano na AACD. Essas duas experiências foram lindas e cheias de momentos inesquecíveis.
No hospital as primeiras sensações foram de relativizar todos os problemas da minha vida. Perceber a força das pessoas que tinham que lidar com situações limite. A escolha de repertório tinha que passar por muitos filtros. Mas crianças são crianças em todo lugar e, mesmo debilitadas, elas sorriam e se divertiam e nós esquecíamos que estávamos ali. Histórias de lobo no hospital eram uma coisa incrível. As crianças ficavam numa excitação louca. O medo do lobo parece que resolvia todos os medos inexplicáveis que eles sentiam ali. Quando contávamos essas histórias parecia que depois da excitação o ambiente ficava mais leve.
A AACD tive um trabalho muito gratificante. Eu ia toda semana e pude construir um processo com as crianças. No final eles inventavam histórias a partir de cartas com figuras que eles sorteavam. Mesmo os que não falavam contribuíam através de suas “bandejinhas” com figuras que eles usavam para se comunicar. Criaram histórias incríveis e eu fiquei muito feliz e orgulhosa com este trabalho.
JS – Desde o início da caminhada na arte de contar histórias, o que você acha que mudou em relação ao mercado de trabalho, há mais aceitação por parte do público hoje do que antes?
ALL - Acho que sempre houve aceitação, mas acho que hoje não preciso explicar tanto o que eu faço. Mas o fato do mercado ter se expandido muito fez surgir também os interessados em “cachê”, que não têm nenhuma pesquisa sobre a arte e fazem coisas bem questionáveis. Isso faz parte da vida. Qualquer coisa que começa a chamar atenção sempre atrai curiosos e oportunistas. O mercado acaba peneirando.
Foto: Flavio Moraes
JS – Você esteve na Espanha, que tipo de proximidade você viu entre os narradores de lá e os daqui?
ALL - Não consegui assistir contadores de histórias de lá... Infelizmente. Mas trouxe muitos livros. Trouxe histórias do Palácio de Alhambra e contos populares espanhóis. Vim com muita vontade de montar um repertório “caliente” cheio de leques e violões.
JS – Você sempre tocou um projeto fixo de narração de histórias em São Paulo, junto ao Centro da Cultura Judaica, como foi/está sendo esta experiência?
ALL - Estou lá há sete anos. Adoro este trabalho. Não sou judia e o fato de trabalhar no CCJ me obrigou a estudar a cultura judaica. Tornei-me uma apaixonada por esta cultura, suas histórias e seus autores. Lá desenvolvemos um projeto bem bacana, Sipurim – Hora da História, unindo a programação de narração de histórias com as exposições que estão em cartaz no espaço. Depois das apresentações oferecemos uma oficina para as crianças e às vezes uma visita monitorada à exposição.
No ano passado fizemos um projeto lindo sobre Portinari por conta da exposição de seus quadros produzidos a partir de uma viagem que ele fez a Israel. Contamos a infância, a vida adulta, a relação com o avô e terminamos num happening com poesia, musica e a produção de um painel feito por uma artista plástica com intervenções das crianças. Foi lindo!
Outra coisa maravilhosa deste trabalho foi poder estar perto e conhecer pessoalmente figuras inigualáveis como José Mindlin, Moacyr Scliar, Fanny Abramovich, Mirna Pisnky, Lia Zatz, Nelson Ascher, Betty Mindlin entre outros, por conta dos Cafés Literários que eu coordenava. Li contos desses autores ao lado deles e isso é um privilégio.
JS – Que tipo de sugestão você daria para os novos contadores de histórias que estão surgindo agora? Você tem uma oficina permanente, né? Fala pra nós como é este trabalho e o novo espaço que criaste?
ALL - Acho que quem está começando agora tem que assistir muita gente antes de se aventurar a sair contando. É bom entender o que é esta arte e encontrar a sua “pegada”. É um trabalho pessoal e cada um tem que encontrar o seu jeito. Dou oficinas em vários lugares, mas agora abri um espaço meu, a Casa do Faz e Conta aqui em São Paulo. Além de mim, mais 3 professores compõem minha programação de cursos: A Leila Garcia (aquela primeira contadora que vi), Kelly Orasi (com quem fiz meu primeiro curso de contar histórias) e Betinho Sodré (um dos primeiros músicos a me acompanhar como contadora). Pretendo que lá seja um espaço de reflexão sobre esta arte. Além de cursos teremos apresentações e encontros para troca de experiências. Estou bem animada com esta nova empreitada e cheia de planos para a Casa. Ela ficou linda! É pequena e acolhedora como uma casinha da floresta...
JS – Quem é Ana Luísa Lacombe por Ana Luísa Lacombe?
ALL - Sou uma trabalhadora incansável e apaixonada pelo que faz. Perfeccionista, exigente e delirante. Estou sempre com mil idéias e projetos, gosto de trocar experiências e reflexões com outros artistas. Gosto de me relacionar com diferentes grupos de teatro e contadores de histórias. Quando podemos trabalhar com os outros arejamos nosso próprio trabalho. A Yoga, a música, minhas plantas são minha âncora. Minha família está longe (estou aqui em Sampa e eles no Rio) mas tenho meus pais e minha avó sempre perto me apoiando e me inspirando. Adoro família, festas de família, ritos e memórias...
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Chaplin, em sua biografia, conta dos artistas que começaram a se suicidar por volta de 1912. Artistas que ficaram desesperados quando perceberam que o surgimento do cinema fez nascer um conceito de mito, de fama, muito diferente do que estavam acostumados!
Tenho ouvido discursos semelhantes de vários colegas, alguns estão considerando a possibilidade do suicídio, por se julgarem inúteis e mal encaixados num mundo globalizado e rapido como é hoje em dia!
Há aqueles que estão migrando para outras profissões e passaram a acreditar que relamente não é possível viver de arte, principalmente nos tempos atuais, onde o conceito de mito e celebridade passou a exigir cada vez mais um apelo imediato e de total empatia com o público numa velocidade record.
A depressão, o medo, a angústia e a solidão tem sido uma constante na nossa profissão, sobretudo um sentimento de inutilidade e um certo vazio causado pela profunda falta de esperança. Há o medo de chegar à velhice sem qualquer cobertura do estado e/ou uma garantia de descanso depois de uma vida de trabalho.
Alguns sentem medo de perder seus companheiros ou companheiras por não conseguirem uma forma digna de prover o sustento e dar garantias para a família.
Na minha opinião, esses fantasmas sempre existiram na vida do artista. Se hoje vivemos uma pressão econômica maior, em tempos outros, era bem difícil lidar com o TABU da profissão. Hoje em dia o artista é depreciado e amado e é mais aceito na sociedade de consumo!
Não vejo o Suicídio como uma saída para ninguém, também acho que é saudável manter um tom otimista e trabalhar um pouco por dia para mudar a sua condição. É importante, no entanto, ter consciência de que o conceito de mito e poder hoje em dia é bem diferente da época do chaplin, mas as perguntas persistem:
Afinal, o que é ser, de fato, um bom artista?
O que é preciso para sentir-se feliz sendo artista?
Conheci "Zé Bocca" No Simpósio Internacional de Contadores de HIstórias, onde nos encontramos praticamente todos os anos. Não são poucas as notícias da beleza e grandeza de seu trabalho. Um artista gregário e irmão, que batalha pela classe e está sempre presente com seu belo repertório.
Nesta entrevista vamos conhecer melhor sua filosofia de vida, de trabalho e sua visão sobre a arte de Contar Histórias.
Zé Bocca é ator, contador de histórias, coordenador do Núcleo de Contação da cidade paulista de Votorantim, percorreu diversas capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte, Florianópolis, Recife, Salvador e S. Paulo.
Vencedor do Festival de Humor de Sorocaba, na categoria Causos e Mentiras, no ano de 2007. Coordenador e apresentador do projeto Violas, Causos e Crendices, em Votorantim.
É vice presidente do Instituto Conta Brasil, que se propõe a discutir questões relativas à narração oral, em todo território brasileiro.
Ministra oficinas e palestras sobre a arte de narrar histórias, junto a órgãos municipais, estaduais, federais, empresas privadas e ONGs
Em parceria com o Instituto Cultural Aletria de Belo Horizonte/MG, atua monitorando oficinas junto ao grupo Encantadores de Histórias, formado por recuperandos do sistema APAC (Associação de proteção e assistência ao condenado).
Jiddu Saldanha – Como você vê o panorama da contação de histórias no Brasil hoje. Ouve um crescimento e um amadurecimento da expressão destes artistas?
José Bocca - Muito positivo, se percebe cada vez mais pessoas interessadas em narração de histórias. Seja no sentido de praticar, ser contador, como na condição de oportunidades de trabalhos.
Hoje em dia já é possível sobreviver de contar histórias. E é claro e evidente que há um amadurecimento e respeito aos contadores de histórias no Brasil e já existem sinais de movimentos organizados, para se pensar a arte de contar histórias, e a condição do contador de histórias. Como o Instituto Conta Brasil (www.contabrsil.org), uma ONG formada por contadores de todo Brasil.
JS – Que avaliação você faz dos eventos que hoje acontecem no Brasil, em que eles estão contribuindo para melhorar o contato com a leitura e a memória?
JB - Felizmente cada vez mais no Brasil existem eventos que congregam narrativas e narradores, alguns com uma longa carreira. Podemos citar o Conto Sete em Ponto, em Belo Horizonte, que ocorre há mais de dez anos, recebendo os mais importantes nomes do país. Em São Paulo, acontece bienalmente o Boca do Céu, recebendo contadores do Brasil de outros países, mas o grande catalisador, aglutinador e motivador de todo o movimento existente hoje é, sem dúvidas, o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, que desde 2002 de forma ininterrupta ocorre no Rio de Janeiro, e em 2010, também em Ouro Preto, oferecendo de maneira extremamente rica, trocas de experiências e vivências nos mais diversos sotaques, línguas e linguagens. Mas, contudo, é importante destacar que a tarefa da oralidade, da preservação da memória, deve ser de todos: contadores, pais, educadores.
JS – Na tua percepção o que uma pessoa precisa ter para ser um contador de histórias?
JB - Antes de qualquer coisa, ser um bom ouvinte de histórias. Depois, existem elementos importantes que podem favorecer uma boa narrativa. Mas, na minha visão, o importante é jogar com a platéia, o olho no olho é fundamental. Agregado a isso, uma boa bagagem, vivencia, é o que Regina Machado, no seu livro Acordais: Fundamentos Teóricos-Poéticos da Arte de Contar Histórias (Editora DCL) – aliás, obra importante pra qualquer contador que se preze – chama de “repertório de informações” do contador. Não basta ter umas histórias memorizadas, é preciso estar ligado no contexto, antenado com o universo a sua volta.
E por fim, acho que o que define um bom contador de histórias é: aquele que consegue transformar em imagens, na cabeça do ouvinte, as palavras que saem da sua boca.
JS – Que tipo de repertório você recomenda para os narradores iniciantes?
JB - Acho delicada essa coisa de recomendar repertório, o importante é trabalhar com aquilo que se identifique, que se sinta confortável. Adoro repetir em minhas oficinas uma frase de Einstein, o físico: É 10% de inspiração e 90% de transpiração. Não basta o talento, há que se praticar.
JS – Fale um pouco dos momentos vividos na tua carreira, o que te marcou, que lembranças valem a pena citar nesta entrevista?
JB - Bem, eu comecei como ator, lá pelos idos de 1989, meio que por acaso, sem saber o que fazer da vida. Um dia, uns amigos que faziam teatro junto ao Sindicado dos Metalúrgicos de Sorocaba, foram pra rua pra “falar” poesias e por coincidência nos encontramos, me convidaram pra participar, mas nunca havia feito nada além de “teatrinho” de escola ou igreja.
Porém de tanto insistirem decidi falar duas poesias que conhecia de cor: Como dois e dois são quatro (Ferreira Goulart) e Língua, um canto falado (Caetano Veloso).
Quando estávamos comemorando em um boteco, um diretor de teatro da cidade, me disse, apontando o dedo e me olhando na cara: “Bocão, você foi picado pelo vírus, não vai sarar nunca mais”. Até hoje eu não sei se era uma benção ou uma praga; mas o fato é que ele estava certo.
Depois de anos como ator, comecei a contar histórias, mas com todo o ferramental que eu trazia do tetro, em especial o teatro de rua, que era minha escola. Contava com adereços, figurino, maquiagem...
Até que em 2002, participei do primeiro encontro de contadores, em Porto Alegre, dentro do Fórum Social Mundial, e percebi que a força do contar histórias, estava na palavra e hoje tenho, como contador, um trabalho mais “limpo” e centrado na palavra oral.
Pois, como disse certa vez, numa entrevista pra revista Bravo, José Saramago, escritor português: “A verdadeira palavra, é a palavra dita. Pois a palavra escrita é apenas uma coisinha morta, que está ali, a espera que a ressuscitem”.
JS – O que você lê? O que você gosta de ouvir?
JB - Leio de tudo que cair na minha mão, desde literatura de cordel a tratado de física quântica, bula de remédio, rótulos de embalagens. É claro que tenho minhas leituras preferidas. Gosto muito de poesias, sendo meu poeta predileto Paulo Leminski, gosto muito do russo Maiokoviski. Na prosa, adoro o trabalho do Ruben Fonseca.
Também leio muita teoria sobre a arte de contar histórias.
Quanto a musica, sou muito eclético, ouço desde canções e populares até jazz, blues e afins. Ultimamente estou mergulhado no cancioneiro caipira do interior paulista, me deliciando com Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Alvarenga e Ranchinho.
JS – Quem é Zé Bocca por Zé Bocca?
JB - Morador de Votorantim/SP, onde está enterrado meu umbigo.
Pisciano (do dia da mulher), e como bom peixe, morro sempre pela boca. Meus pecados são sempre por palavras, nunca por ato ou omissão.
É isso...
Principais eventos que participou como contador, nos últimos anos.
Divinópolis, uma bela cidade que fica a duas horas de Belo Horizonte, terra da poeta Adelia Prado e do professor e contador de histórias Juvenal Bernardes, foi lá que ministrei a oficina “O Gesto na Narrativa Oral”; um contato profundo com a arte de narrar histórias. Em Abril de 2011. Foram momentos inesquecíveis, “horinhas de descuidos”, como diria Guimarães Rosa, onde fluiu a verve mineira, o melhor da energia de narrar num estado que concentra o maior número de contadores de “causos” por metro quadrado do Brasil.
O grupo formado por pessoas apaixonadas por literatura e pela cultura popular e uma imensa curiosidade com a universalidade transcultural da arte de narrar.
Foram 3 dias de mergulho na essência de uma cidade “de passagem” como dizem os próprios divinopolitanos e que, no entanto, ao longo de sua história vem construindo uma auto estima voltada para seus costumes mais genuínos.
Valeu Divinópoilis, SEMPRE LEMBRAREI DE TI, BELA CIDADE!
Marciah é uma amiga querida da cultura popular, do jongo e da ciranda. Atua em Cabo Frio e em Arraial do Cabo. Dedica-se à pedagogia, à solidariedade, ao amor e ao resgate de nossas raízes. Entrevistá-la era um sonho antigo e que se realizou agora, por força dos orixás.
Jiddu Sladanha - Como foi o teu despertar para a cultura do jongo?
Marciah Fonseca - Comecei desde pequena... por incrível que pareça, fiz balé clássico durante muito tempo, curso profissionalizante da escola de dança do RJ, neste curso havia muitas disciplinas, uma delas era folclore nacional prático e teórico, uma outra era Afro (contemporâneo e de orixá). Foi aí que eu entrei em contato com a cultura brasileira, e me identifiquei com a cultura do negro, através da dança. Conheci o jongo e outras danças e amei!!! Os anos passaram e eu fui para a faculdade de educação física (UFRRJ), tive contato com vários grupos de danças folclóricas e de cultura popular nas minhas andanças acadêmicas... como eu moro em Santa Teresa, bairro vizinho à Lapa, eu conheci o mestre Darci, comecei a escutar muita coisa de samba, onde o jongo ou caxambu é sempre lembrado. Foi quando em conheci uma galera do jongo da Serrinha/Grupo Brasil Mestiço e o Pau da Graúna... e com eles o jongo, lundu, ciranda, coco, etc. Foi aí que despertou a vontade, com significado bem claro, de dançar e trabalhar com cultura popular brasileira.
JS – Qual é o momento do jongo que mais realiza a tua alma e teu coração?
MF - Quando to na roda e me transporto para os tempos de senzala/quilombo, me transporto para um momento mais próximo da tradição e costumes do jongo.
JS – Fale um pouco do trabalho que você desenvolve com crianças e adultos.
MF - Fiz concurso para Educação Física para a rede de Cabo Frio, passei. Na loucura de ir e vir do Rio, gastando muita grana de passagem, resolvi ir até a sec. de educação de Cabo Frio pedir hora extra, com o projeto na mão de cultura popular brasileira na escola. Gostaram e fui enviada a única escola integral do município ( pelo menos até hoje). Essa escola tem aulas no contra turno, de diversas modalidades artísticas, culturais e esportivas. Lá ministro aulas de Danças populares brasileiras e Capoeira (projeto GRIOT Construindo saberes) e estou lá desde setembro de 2008.
JS – Como você vê a aceitação da cultura negra dentro das escolas por onde você passou/passa atualmente?
MF - ‘Negada’ pelos próprios negros, inclusive. Tudo é chamado de “macumba”! Tudo! Qualquer batuque é macumba! Qualquer música que não seja louvor ou funk é discriminada. Mas apesar disso, as crianças adoram... e a atividade segue crescendo na escola. A gente consegue perceber isso até mesmo quando elas estão indo pra casa, vão fazendo o tabiá; na fila, fazem tabiá; no recreio, fazem o tabiá, até na porta da igreja evangélica,fazem o tabiá rsrs. O samba de roda também é muito querido entre as crianças. E agora com o maracatu e o maxixe estamos fazendo cortejos, e bailinhos.
JS – Na tua opinião, o que você acha que está faltando para o Jongo ter mais aceitação no interior do estado do Rio de Janeiro? MF - Não é em todo o interior do Rio de Janeiro, todo encontro de jongueiros a maioria dos grupos e comunidades são do interior, poucos são os jongos ditos “urbanos”... em qualquer lugar o “velho” e o “novo” travam a questão é mais grave, na minha vivência, é na região do lagos. N aminha opinião falta TRADIÇÃO.
JS – Cite os jongueiros e rodas de jongo do Rio de Janeiro e interior que você gosta.
MF - FUZUÊ DE ARUANDA (UNIÃO JONGUEIRA DA SERRINHA), BÁRBARO (mestre), RODA DE JONGO DO SAMBA DO CHAPÉU, JONGO BANTO, JONGO PÉ DE AMENDOEIRA (Niterói), ASA BRANCA (mestre), RIOS (mestre), JONGO DA SERRINHA, JONGO DA LAPA (coletivo da jongueiros), ai meu Deus.. são tantos... Gostava muito da roda das três Marias... Eu gosto de roda pé no chão!
Escritor de literatura infantil com 16 livros publicados editor da Casa da Prosa
Membro do Colegiado Setorial do Livro e Leitura do MinC, instância do Conselho Nacional de Política Cultural
Contemplado na Bolsa Funarte de Circulação Literária 2010 Ganhador do Premio Literatura para todos -MEC 2008
Jiddu Saldanha – O Cearense é considerado um contador de histórias nato, a que você atribui este forte traço cultural?
Almir Mota - Na minha família, principalmente por parte do meu pai, todos adoram contar um bom causo. Era sempre assim quando eu era menino, pelos seis anos de idade ouvia muito minha Avó a Dona Canela (canela aqui é aquela planta que se faz chá) ela contava todo tipo de histórias rimas ou não. Então acredito que assim como eu muitos outros cearenses ouviram histórias na infância.
JS – Como foi que a arte de contar histórias surgiu na tua vida?
AM - Como contador de histórias foi há uns 12 anos quando estava lançando o meu primeiro livro infantil, O Cavalinho Amarelo. Daí pra cá fui só melhorando o repertório de histórias e criando as minhas próprias.
JS – O que a arte de contar histórias acrescenta na vida das pessoas em geral?
AM - Muita imaginação, eu acho. Mas também oferece a chance de conhecer mais daquilo que esta nas pessoas. Pois os contadores são esta espécie de gente-livro que vive se mostrando para o mundo.
JS – Que tipo de “talento especial” é necessário, na tua opinião, para ser um contador de histórias?
AM - Precisa aprender ouvir, isto já um começo. Acho-me um bom ouvinte.
JS – Você acha que, no Brasil, já existe o reconhecimento do profissional contador de histórias? Qual o impacto disso, na tua opinião?
AM - Infelizmente ainda não temos, mas o contador de histórias como profissional já é citado até na lei do magistério. Precisamos nos unir mais. O Conta Brasil (Instituto de Contadores de Histórias do Brasil) pode ser uma boa ferramenta de luta junto ao congresso nacional para regularizar a classe.
JS – Quem são os artistas desta área que você costuma apreciar?
AM - Vixe. São muitos meu filho! Meus amigos todos contadores. Mais aqui no Ceará tem uns velhos de setenta e lavai pedradas que contam divinamente. Nós descobrimos no projeto da Júlia Barros, o “Lamparina de histórias”, entre eles temos seu Manuel Sivestre da cidade de Aquiraz.
JS – O que você recomenda para os jovens que querem se dedicar à arte de contar histórias?
AM - Escutem os mais velhos. Ouçam a voz, o gesto e o olhar de quem carrega as histórias por toda a sua vida. Leiam bastante, o bom narrador precisa saber o que esta contando para as pessoas.
JS – Quem é Almir Mota por Almir Mota?
AM - Um cearense esperto que nem mineiro, apressado feito paulista, manso como carioca e batalhador como todo brasileiro.