Primeiro estrangeiro a ganhar o Gran Prêmio Yolanda Hurtado, no Chile, em 2014, por serviços prestados ao mundo da arte e sua contribuição para o enriquecimento humano.
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Arquitetura e Narração de Histórias, um encontro de águas na pororoca brasileira!
Toda uma geração de narradores se formou no Simpósio Internacional de Contadores de Histórias, um grande acontecimento, iniciado em 2002 e que, depois de 10 edições, teve uma pausa em 2012 para retornar com toda a força em 2014, em Niterói; nada mais nada menos que no magnífico complexo arquitetônico de Oscar Niemayer. Aliás, vale um elogio especial para a cidade de Niterói, que tem a segunda maior concentração de obras do mais importante arquiteto brasileiro, perdendo apenas para a capital, Brasília-DF.
Suntuosidade à parte, o Simpósio Internacional de Contadores de histórias é um marco brasileiro para os profissionais que vivem da narração. Até então, os eventos produzidos envolvendo contadores de histórias eram mais regionais e de cunho nacional, bastou surgir o Simpósio e esta arte foi alçada ao ápice, criando uma teia de influências e elevando os contadores de histórias brasileiros à categoria de artistas do mesmo porte dos atores, diretores e cineastas.
Em 2014, o retorno de um dos mais importantes eventos para Contadores de Histórias do País.
Hoje, o país vive um boom desse tipo de expressão artística com pessoas influentes na área de educação e leitura, fazendo e acontecendo, criando não só status, mas gerando mercado para esses profissionais atuarem com respeito e dignidade. Tem sido assim nos últimos 15 anos e sem dúvida, a narração de histórias atingiu mais espaço e conseguiu inserção séria na mídia nacional graças à habilidade da produção do Simpósio, que soube dar um gás a mais a esta prática artística que hoje tem seu lugar garantido no a painel das artes brasileiras.
A partir do dia 05 de Fevereiro, a arte de narrar terá, em solo brasileiro, importantes nomes desta arte e todos concentrados na cidade de Niterói, no ano da graça de 2014.
Foto de Lara Rothier - Espetáculo
"Palavra Entrelaçada" - 2013
Existem momentos na vida em que festejar é pouco! Romper barreiras limitadas pelo mercado e conseguir adentrar num templo da cultura carioca é algo do qual realmente se deve sentir orgulho...
O CCBB é um velho amigo de guerra, lá vivi algumas
experiências de poder compartilhar com o público a minha linguagem cênica. Não
é fácil chegar àquele lugar, quando se é um artista independente, sem
financiamento, mas, por outro lado, não é impossível. Poder mostrar a riqueza
de uma linguagem pessoal sem imitação de padrões ou cânones, buscando uma originalidade
e se conectando artisticamente através da arte do SOLO teatral, nos palcos.
A primeira vez, em que estive naquele fabuloso templo da
cultura carioca foi em 1999, convidado pelo projeto Leituras e Gostosuras,
coordenado por Christianne Rothier e Marina Quintanilha Martinez, e fui
fotografado por Mônica Leme. Nesta época apresentei o espetáculo POR DETRÁS DO
SILÊNCIO, meu solo de mímica teatral, que estreou em Curitiba, em 1991, com
supervisão e repertório do meu mestre de mímica Everton Ferre. Neste fabuloso
momento fui clicado pela fotógrafa carioca Mônica Leme.
Em 2011, no teatro 02, o espetáculo "De Gestos e de Palavras", desta vez, clicado por João Carlos Luz.
Retornei ao CCBB em diversos momentos, fazendo performances
nas salas de oficinas, mas, em 2011, fui convidado para realizar meu espetáculo
“De Gestos e de Palavras”, onde juntei a mímica teatral e a narração de histórias,
focada em lendas japonesas. Um trabalho criado em 2008 em homenagem aos 100
anos da imigração japonesa no Brasil. Foi uma bela experiência, registrada pelo
meu amigo poeta e cinéfilo, João Carlos Luz. Foi quando conheci o teatro 2, com
todo seu potencial de público e seu espaço privilegiado, consagrado para a
grandes espetáculos, lembro de ter assistido lá o músico Carlos Careqa, com o
incrível Arrigo Barnabé.
Em 1999, uma apresentação no hall do CCBB, clicado por
Mônica Leme, espetáculo de mímica "Por Detrás do Silêncio".
Em 2013, logo no início do ano, sou convidado novamente e,
desta vez para apresentar meu espetáculo PALAVRA ENTRELAÇADA. Meu novo
espetáculo que estreou em 2011, no teatro Iná Mureb, em Cabo Frio. Desta vez, o espetáculo foi levado no teatro
01, onde, em outras épocas assisti a espetáculo nada mais, nada menos que de
Bia Lessa (Viagem ao Centro da Terra), Grupo Galpão (Rua da Amargura) e Ponto
de Partida (Grande Sertão Veredas) além do belo espetáculo “Guerra Santa” de
Gabriel Vilela.
Nessa minha nova incursão pelo espaço, tive o prazer de compartilhar
o momento com a pessoal do coletivo Teatro Trquipiniquim e fui clicado pela
fotógrafa debutante Lara Rothier, que fez belos cliques deste meu novo trabalho
que já vem ganhando seu espaço, no território Nacional.
O QUE SERÁ QUE VIRÁ PARA OS PRÓXIMOS MOMENTOS DE 2013?
Narrar com Voz e Mímica, exercício e
busca pessoal.
A oficina “O Gesto na Narrativa Oral”, que teve sua estréia
no “VI Simpósio Internacional de Contadores de Histórias”, já tem 5 anos de
estrada. Viajando pelo Brasil, levando reflexões sobre a gestualidade do contador
de histórias, tem como objetivo principal, acrescentar a mímica como parte do “discurso
cênico do narrador”.
***
Dessa vez, estarei ministrando essa oficina-vivência,
como gosto de chamar, nas dependências da UEAP – Universidade Estadual do
Amapá em Macapá, capital, e lá com certeza, irei usufruir dos ares
amazônicos além de levar minha percepção de trabalho para jovens e adultos que
curtem a arte de narrar.
Desde que saí de uma oficina do grupo Morandubetá, em 1993,
ministrada na UERJ e que tive o prazer de ser aluno de nomes como:
Lúcia Fidalgo, Celso Sisto, Eliana Yunes e Benita Prieto, juntei a arte da mímica, herança do meu
querido mestre Everton Ferre, com a arte da narração oral e de lá pra cá, foi
um casamento perfeito. Somado a isso a
experiência com meus 30 anos de teatro, me sinto num momento de grande encontro
entre a técnica, a experiência e a “pretensa” sabedoria.
Encontrar jovens que
queiram mergulhar na arte da narração oral é um exercício de múltiplas
possibilidades entre essa energias agregadas ao longo de minha história
pessoal. Galera de Macapá, to chegando!
Tive o prazer de
conhecer Renata Andrade, e venho
acompanhando um pouco de seus passos artísticos. Uma pessoa de fala leve e
que é um turbilhão por dentro. Solidária e curiosa, tem aquele jeitinho de “criança
louca para botar o dedo no bolo de chocolate da aniversariante”... Sempre que a
encontro, rimos muito e falamos com gosto, da arte de narrar. Então, decidi,
entrevistá-la para que vocês a conheçam melhor.
Cenas de "Cordel do Amor sem Fim", montagem do Teatro Trupiniquim, 2010 - foto de Alexandra Arakawa.
Renata
Andrade é atriz, contadora de histórias e educadora, nascida interior do Rio de
Janeiro, Volta Redonda, onde teve seus primeiros contatos com o teatro. Em 2002
chegou ao Rio e atuou em dois espetáculos do Gene Insanno Cia Teatral; em um
deles foi apresentada à linguagem da Contação de Histórias.
Entre 2003 e
2007 graduou-se em letras na UFRJ, fez técnico de atores na Martins Pena e
cursou especialização em latim na UERJ. Na Martins, ganhou um papel que a
marcou, a Mãe em Bodas de Sangre, dirigida por Monica Lazar, e conheceu
artistas com os quais tem trabalhado até hoje. Na UFRJ, contou histórias no
IPPMG junto à pesquisa sobre Literatura Infantil. Em 2005, começou a narrar
histórias no Sesc-Bm e de lá para outros lugares.
Entre 2009 e
2011, foi Contadora de Histórias no PCP-Maré. Em meados de 2009, começou a
lecionar. Paralelamente a estes dois trabalhos, dirigiu a produção de A última
Flor, no Teatro Gláucio Gil. Após o espetáculo adentrou o Teatro Trupiniquim, a
convite de KarolSchittini.
Neste
coletivo de artistas, atuou em Cordel do Amor sem Fim; Rosa dos Ventos;
Pierrot, Arlequim e Colombina, A Boca da Noite e MBOIOBM (prática de sua
pesquisa artística pessoal).
Na Boca da Noite - 2012 - Foto de Wallace Feitosa.
Jiddu Saldanha – Fale
um pouco do que te motiva a dedicar-se à arte de narrar histórias.
Renata Andrade - Contar histórias é uma oportunidade de entrar em
comunhão com as pessoas, falamos de coração a coração sem barreiras. Eu me abro
pra elas. E regozijo-me quando elas se abrem para mim.E tudo que vivemos ali é
verdade.
Jiddu Saldanha –Como você escolhe uma história pra
contar? Que tipo de estímulo te leva a optar por uma ou outra história?
Renata Andrade - Acontece quando vejo na história a
possibilidade de colocar algo que me está encucando no momento.
O Pinto Suraeu escolhi por ele me
fazia rir em sua fraqueza, mas também era um personagem audaz, pegou um desafio
e foi. Adoro histórias de macaco, porque ele vai além no imaginar-fazer e
também porque suas histórias possuem antagonistas recorrentes. Na medida que os
conhecemos em uma história saberemos como eles agirão em várias, daí uma
história puxa a outra.
Às vezes escolho porque a história me
faz expressar um sentimento que está preso dentro de mim, para elaborar-me;
outras vezes porque quero brincar com um ritmo. E um tema que me encanta. Mas
dificilmente será porque alguém me pediu.
JS -Você está estudando
a fundo o mito da Cobra Grande, fale um pouco sobre isso e porque escolheu este
mito?
RA - Considero-me
bem no início da estrada que quero descobrir, há muito a ver e quero contar pra
vocês. Encanta-me que se trate de uma personagem de criação coletiva (pois se
mantém viva através da tradição oral) e pode refletir parte da psicologia
humana, portanto particular, ao mesmo tempo em que é um bom entretenimento, com
atos de bravura, romance, inveja e encantamento.
A Cobra Grande está ligada aos mitos
de criação do homem e do mundo tal qual o homem
sabe, com dia e noite, vida e morte, sujeito carregado de bem (conhecido) e mal
(desconhecido); isso pode até soar maniqueísta, embora não seja tão simples
assim.Na língua tupiela já recebeu três nomes,Mboiguaçu (Cobra Grande), Mboiuna
(Cobra Preta) eMboitata (Cobra de Fogo).
Ao unir os contos dessa figura recolhidos por todo o Brasil, comecei a
traçar um perfil do personagem.
A história dessa cobra se assemelha às
narrativas de outras partes do mundo. Na África,
conta-se que embaixo da terra, em seu centro, há uma cobra que circula o tempo
todo, atrás de seu próprio rabo, dando voltas no mesmo lugar. Enquanto esta
cobra continuar circulando, a terra prospera. Quando ela parar, tudo que é vivo
morre.
Como símbolo, a serpente é oposta
e complementar ao homem, está diretamente ligada à parte que desconhecemos. Interessa-me
metaforizar, através destas histórias, como a serpente habita um sujeito
enquanto pulsão de vida eseus ritos de passagem - da escuridão à luz e
vice-versa.
Como parte prática desta pesquisa,
trabalho com mais um ator em A Boca da Noite e MBOIOBM, uma performance que
criei motivada pela pergunta que desejo
deixar como refletida ou sentida de alguma forma no público: Como esta serpente
circula dentro de mim?
Mostra do saber popular 2012 foto de Ana Paula Silva
JS – Quais os
narradores de história que você admira? Fale um pouco da experiência de tê-los
assistido.
RA - Sou grata
por ter amigos contadores de história que admiro. É interessante que cada
narrador, bom narrador, conta sempre de um jeito muito próprio. Só ele conhece
a história desse jeito.
Jiddu Saldanha, conhece? O cara conta
história com o corpo e, nas apresentações que eu assisti, sua narrativa tinha
uma estrutura quase pedagógica,um disseminador de conhecimento.Parecia que, ao
sair dali, as crianças estavam prontas para recontarem a história que ouviram.
Bernardo Zurk conta com uma aparente
ingenuidade cômica. A gente não acredita que ele vai fazer aquilo. O que parece
simples, na verdade está carregado de técnica (depois ele me mostra). E
funciona de tal forma, que quando ele repete a história te parece simples de
novo.
A Solange Penna conta de umaforma muito
divertida,careteira e musical e diz que não é contadora (lorota né Solange). A
Silvia Ferraz, do Baú que Conta, é capaz de desenrolar o fio da história por
muito tempo mesmo, de tal forma que você fica com ela por todo esse tempo.
Agora, uma que não é minha amiga(mas
eu queria muito conhecer) é a Dona Zefa. Assisti suas contações em um vídeo que
acompanha o livro “Corpo a Corpo” de Zeca Ligièro - Professor da Unirio e
Diretor Teatral - e também pude ouvi-lo falar dessa figura. Dona Zefa é
contadora de fato, parece até que nasceu assim. Desde menina, ela conta
histórias incríveis inspiradas na bíblia e na sabedoria popular. E conta como
se os personagens e o causos fossem acontecidos ainda agora, como se fosse a
história de um vizinho nosso. Parece uma daquelas vozes saídas das histórias
coletadas por Câmara Cascudo, Simões Lopes Neto e outros.
Assistir essas pessoas em histórias
diversas faz a gente conhecer um pouco delas. E daí me dou conta que quem me
ouve contar também sabe de mim. Essa troca é linda, não deve parar.
Renata aguarda o momento de entrar em cena para o seu espetáculo de narração atual "A Boca da Noite" 2012 foto de wallace feitosa.
JS – Faça sua lista de
filmes preferidos.
RA - São muitos
outros fui descobrindo, mas os queme vêm mais frequentemente são: O Fabuloso
Destino de Amelie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet; Cenas de um Casamento, Gritos
e Sussurros e Persona, de Bergman; O Carteiro e o Poeta (Mássimo e a melhor
explicação do que é metáfora), de Michael Radford; Tudo sobre minha mãe, de
Almodóvar;La Strada, de Fellini; Humberto D, de Vittorio de Sica; O Casamento
de Maria Braun, de Fassbinder; O Sopro do Coração, de Louis Malle; Como água
para chocolate, Alfonso Arau; e vai por aí...
JS – O que você
recomenda para as pessoas que estão começando a lidar com a arte de narrar
histórias?
RA - Ler,
ouvir, ver, sentir o que vem de fora a partir do que vem de dentro. Que a sua
história seja singular. E não feche uma história, tenha a delicadeza de deixar
uns espaços nela. Ela sempre pode mudar, pois cada público que te ouvir se
encarregará de fazer sua contribuição ou novos espaços; e porque o que é
verdade para nós também muda com o tempo.Ninguém é. Estamos sendo.
JS – Você se dedica à
educação e ao teatro, como é se equilibrar no universo da pedagogia e o
universo da arte, pra você?
RA - É muito difícil,
pois estes ofícios se desencontram no tempo-ritmo que exigem da nossa vida. Encontram-se,
porém,na ludicidade e no potencial transformador da sociedade que têm.
Tem muito suor e rotina no trabalho
do professor. Atualmente, estetrabalho requer uma carga horária em bloco e, por
isso, tem que se criar pausas, pequenos descansos para não virar tijolo ou
argamassa da educação. Nestas condições,meu desafioé tomar a preparação pontual
como processo.
E a arte precisa estar comigo a todo
momento, na verdade, eu é que preciso estar com ela, respirá-la. Minhas
apresentações duram de 40 a 60 minutos e são preparadas por muito mais tempoque
isso, às vezes, o envolvimento com uma história leva anos.Já as aulas costumam
ser preparadas por ¼ do tempo utilizado para se manifestarem. Pergunto-me
sempre como unir estes universos.
Ser bipolar ou desenvolver dupla
personalidade não resolve. Tenho lidado com isso respirando as duas coisas,
entendendo-as como uma só: o movimento de transformação lúdica do real, com
roteiros diversos adequados a cada público, tema, situação.Mas isto também é
projeto de pesquisa e prática contínuo.
JS – Quem é Renata
Andrade por Renata Andrade?
RA - Renata
não é. Já digo que ela detesta que a caricaturem
com um único adjetivo, dá logo um montão ou dê nenhum. Dramática, alegre,
insegura, criativa, inquieta, metafórica, capaz, doce, direta. Até parece
bailarina, mas não é, não tem cara de atriz, nem de professora, menina, mulher,
tia, amiga, filha. Prepotente propensa comunista que ganha o capital de cada
dia, crê que nenhum desejo foi, nem é grande demais (pra ninguém no mundo). É a
vida que diz isso enquanto se respira. Mas os outros causam um puta medo. Será
que concordam?
Mas já que é Renata por Renata, digo
que assumi a etimologia do nome, com o compromisso de renascer quando sinto que
morri. Parece lógico. Que bom. Aceitar a morte para receber a vida. Os contos
de fada nos ensinam que essa é uma forma de ouvir a intuição. E, sim, eu sou
laranja e um pouco de lilás também.
Veja alguns vídeos com a participação de Renata Andrade.
Atitude legítima e contemporânea escrever o poema e dar a ele um rosto imagético, esta é a proposta deste tópico onde registro com imagens e palavras alguns momentos de uma vida de viajante dos sonhos!
Poema que virou música do músico transcultural Nicolás Farruggia!
Parceria com o querido fotógrafo mexicano Raul Sibaja.
Fotopoema criado a partir de uma foto feita na Feira do Livro de Bento Gonçalves, RS - 2012
Haiga criado a partir de uma pintura de Mayara d'Paula, artista visual de Rio das Ostras - RJ
Tanka, criado a partir de uma foto-cor de Évelin Martins, artista gráfica e desenhista de Búzios - RJ
José Facury cantou a pedra do reino de Suassuna e nós, não
podíamos deixar de compartilhar essa riqueza patrimonial cultural do Brasil. Na
lista do Prêmio Nobel de Literatura, 2012, acho que dessa vez o BRASIL leva. Sim,
somos a “Bola da Vez”, mas Suassuna sempre o foi.
Com sua obra contundente, profunda e capaz de abarcar um
Brasil pensado a partir de suas entranhas, temos neste mestre da literatura uma
de nossas grandes sínteses existenciais. Vamos seguir adiante com este grande
mestre e fazer valer nossa vontade.
Passei boa parte do dia tentando amarrar cordas de náilon num gigantesco pedaço de plástico até juntar as quatro partes do mesmo e amarrar num cinto de pneu em forma de “X”. Tudo no meu tórax. Fiz alguns ensaios correndo pra lá e pra cá, medi o pé direito da casa como se fosse um especialista e concluí que a altura era boa para o primeiro salto do mais jovem pára-quedista da historia: Eu.
30 anos antes de meu grande salto, em 1944, mais precisamente no dia 05 de junho, os aliados jogaram sobre a cabeça dos alemães uma força de elite com 18 mil pára-quedistas que caíram silenciosamente do céu em diversas localidades da Normandia, França, com o objetivo de atacar os inimigos de dentro de seu próprio território, desarticulando-os para que, no dia 06, acontecesse o desembarque nas praias com soldados vindos da Grã Bretanha pelo mar. Eles chegavam em embarcações de todo tipo. Este dia ficou conhecido na história como o dia “D”.
Em 1974, meu pai estava muito preocupado e com um problemão pra resolver:
- Desce daí meu filho.
Em cima do telhado eu via o céu azul, sentia o vento e mirava o matagal à minha frente. Seu Hilário argumentava.
- A altitude é baixa, não vai abrir. Você vai quebrar a perna!
- Não vou não, pai, eu já treinei.
- Treinou errado, meu filho. Os pára-quedistas treinam em lugares altos, lá no Rio de Janeiro que é cheio de montanhas intercaladas de campos abertos e vastos e um vento quentinho, do jeito que o pára-quedas gosta. Você já viu alguma montanha em Curitiba? E o vento aqui é gelado, filho.
- Pai, você não está entendendo, eu sou o menor pára-quedista do Brasil, o primeiro com menos de 10 anos de idade, isto é um acontecimento histórico – embora não tenha dito isso desta forma, ficou clara a intenção.
- É, meu filho, com certeza você é um pioneiro, mas desce daí que te ensino a fazer um pára-quedas de brinquedo, igual aos que eu brincava quando tinha a tua idade.
- É mesmo?
Desci imediatamente apoiando-me pelas vigas do barraco.
Em 1962, o pára-quedista russo Eugene Andreev bateu todos os recordes de altura num salto com mais de 25 mil metros e que até hoje nunca foi superado. A brigada pára-quedista brasileira foi para o Egito em 1957 e ficou lá por quase 10 anos apoiando as nações unidas a manter a “paz” na região de Suez. Meu pai me ensinou a fazer para quedas com plástico e uma pedrinha amarrada embaixo, na base onde se encontravam os oito fios de barbante.
O pára-quedas foi o meu melhor brinquedo da infância.
Dizem que os filhos e filhas dos pára-quedistas nascem sorrindo por causa do friozinho na barriga que suas mães sentem a cada manhã de despedida, pois sabem que, naquele dia, alguém literalmente vai cair do céu, realizando poderosos saltos, mas desta vez, da altura certa e com total segurança, embora, num rigoroso treinamento militar, ou numa deliciosa brincadeira esportiva.
Eu nunca saltei de pára-quedas.
Mas meu pensamento voa quando vejo fotografias de pessoas que "caem" do céu.
Jiddu Saldanha
11.06.2011
Sobre o Suicídio de Artistas!
Chaplin, em sua biografia, conta dos artistas que começaram a se suicidar por volta de 1912. Artistas que ficaram desesperados quando perceberam que o surgimento do cinema fez nascer um conceito de mito, de fama, muito diferente do que estavam acostumados! Tenho ouvido discursos semelhantes de vários colegas, alguns estão considerando a possibilidade do suicídio, por se julgarem inúteis e mal encaixados num mundo globalizado e rápido, como é hoje em dia!
Há aqueles que estão migrando para outras profissões e passaram a acreditar que realmente não é possível viver de arte, principalmente nos tempos atuais, onde o conceito de mito e celebridade passou a exigir cada vez mais um apelo imediato e de total empatia com o público numa velocidade recorde.
A depressão, o medo, a angústia e a solidão tem sido uma constante na nossa profissão, sobretudo um sentimento de inutilidade e um certo vazio causado pela profunda falta de esperança. Há o medo de chegar à velhice sem qualquer cobertura do estado e/ou uma garantia de descanso depois de uma vida de trabalho. Alguns sentem medo de perder seus companheiros ou companheiras, por não conseguirem uma forma digna de prover o sustento e dar garantias para a família.
Esses fantasmas sempre existiram na vida do artista. Se hoje vivemos uma pressão econômica maior, em tempos outros, era bem difícil lidar com o TABU da profissão. Atualmente o artista é depreciado, amado e é mais aceito na sociedade de consumo! Não vejo o Suicídio como uma saída para ninguém embora respeite o conjunto de crenças filosóficas que justificam muito bem esta saída “honrosa” da vida dura e causticante desses dias que vivemos.
É saudável manter um tom otimista e trabalhar um pouco a cada dia para mudar nossa condição mas é importante ter consciência de que o conceito de mito e poder, hoje em dia, é bem diferente da época do Chaplin ainda que as perguntas persistam:
Afinal, o que é ser, de fato, um bom artista?
O que é preciso para sentir-se feliz sendo artista?
Jiddu Saldanha
03/06/2011
Sobre Sonhos e Vaias.
Assistindo a um documentário sobre os festivais de música da antiga Record, famosos pelas vaias a artistas da MPB, pensei em minha humilde carreira... Sim, já fui vaiado, não poucas vezes! A Vaia é um componente importante numa carreira artística, nos dá a nítida noção de que não existe piedade quando nos expomos. O público não está ali para ser bom ou mau. Público é público e pronto!
Uma vez um colega de profissão me disse: “Imagina cara, a galera paga uma grana pra te assistir e, de repente, você derrapa no palco... tem mais é que ser vaiado mesmo. Se tem coisa que respeito é a vaia do público”! “Eu também” - respondi ao meu amigo- “mas que dói isso, dói”.
Receber um uuuuhhh coletivo não é tão simples assim, principalmente quando você vê seus amigos saindo de fininho do teatro, em sinal de respeito, só para não confrontar a tua solidão. Para lidar com esta “desgraça” cunhei a frase: “Artista não tem sucesso e nem fracasso, artista tem biografia”!
Esta frase me consolou muitas vezes e, cá com meus botões, ouvir o burburinho da platéia extasiada tirando fotografia nos corredores, te mandando ramalhete de flores no camarim com cartão e tudo, isso sim é uma boa biografia.
Dito isto, concluo que, viver, no dizer de Guimarães Rosa, “é muito perigoso”, e viver como artista pressupõe que a vaia está na perspectiva. Acho que as únicas pessoas que desfrutam, também, deste “privilégio existencial” são os políticos e os professores: Os primeiros porque ganham muito e não fazem “nada”, os últimos porque vieram ao mundo para expiar os pecados de toda uma cultura falida, em uma sociedade acorrentada por questões meramente relacionais.