OBRIGADO POR SUA HISTÓRIA

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Entrevista exclusiva com o escritor e contador de histórias - Almir Mota, CE

Foi uma grande experiência para mim, conhecer o escritor e contador de histórias Almir Mota, um cearense bem chegado, prosador, e grande incentivador da nossa atividade pelo Brasil. Bem vindo, amigo! Diga lá...

Escritor de literatura infantil com 16 livros publicados editor da Casa da Prosa

Membro do Colegiado Setorial do Livro e Leitura do MinC, instância do Conselho Nacional de Política Cultural

Contemplado na Bolsa Funarte de Circulação Literária 2010
Ganhador do Premio Literatura para todos -MEC 2008

Jiddu Saldanha – O Cearense é considerado um contador de histórias nato, a que você atribui este forte traço cultural?

Almir Mota - Na minha família, principalmente por parte do meu pai, todos adoram contar um bom causo. Era sempre assim quando eu era menino, pelos seis anos de idade ouvia muito minha Avó a Dona Canela (canela aqui é aquela planta que se faz chá) ela contava todo tipo de histórias rimas ou não. Então acredito que assim como eu muitos outros cearenses ouviram histórias na infância.

JS – Como foi que a arte de contar histórias surgiu na tua vida?

AM - Como contador de histórias foi há uns 12 anos quando estava lançando o meu primeiro livro infantil, O Cavalinho Amarelo. Daí pra cá fui só melhorando o repertório de histórias e criando as minhas próprias.

JS – O que a arte de contar histórias acrescenta na vida das pessoas em geral?

AM - Muita imaginação, eu acho. Mas também oferece a chance de conhecer mais daquilo que esta nas pessoas. Pois os contadores são esta espécie de gente-livro que vive se mostrando para o mundo.

JS – Que tipo de “talento especial” é necessário, na tua opinião, para ser um contador de histórias?

AM - Precisa aprender ouvir, isto já um começo. Acho-me um bom ouvinte.

JS – Você acha que, no Brasil, já existe o reconhecimento do profissional contador de histórias? Qual o impacto disso, na tua opinião?

AM - Infelizmente ainda não temos, mas o contador de histórias como profissional já é citado até na lei do magistério. Precisamos nos unir mais. O Conta Brasil (Instituto de Contadores de Histórias do Brasil) pode ser uma boa ferramenta de luta junto ao congresso nacional para regularizar a classe.

JS – Quem são os artistas desta área que você costuma apreciar?

AM - Vixe. São muitos meu filho! Meus amigos todos contadores. Mais aqui no Ceará tem uns velhos de setenta e lavai pedradas que contam divinamente. Nós descobrimos no projeto da Júlia Barros, o “Lamparina de histórias”, entre eles temos seu Manuel Sivestre da cidade de Aquiraz.

JS – O que você recomenda para os jovens que querem se dedicar à arte de contar histórias?

AM - Escutem os mais velhos. Ouçam a voz, o gesto e o olhar de quem carrega as histórias por toda a sua vida. Leiam bastante, o bom narrador precisa saber o que esta contando para as pessoas.

JS – Quem é Almir Mota por Almir Mota?

AM - Um cearense esperto que nem mineiro, apressado feito paulista, manso como carioca e batalhador como todo brasileiro.

Para navegar no site de Almir Mota clique aqui

Conheça o blog de Almir Mota clicando aqui

quinta-feira, 17 de março de 2011

Entrevista com Laerte Vargas.

Tive o prazer de assistir Laerte Vargas contar histórias em 3 ocasiões, durante o "Simpósio Internacional de Contadores de Histórias". Sua forma de contar é simples, direta e impactante. Laerte é um mestre que estimula quem queira praticar esta arte milenar; através de suas oficinas e cursos. Nesta entrevista vamos conhecê-lo melhor.

Laerte Vargas é Contador de Histórias, Facilitador de Oficinas e Terapeuta Corporal.

Desde 1994, viaja o Brasil ministrando oficinas e prestando assessoria a grupos de contadores de histórias e programas de leitura. Atuou no Proler, Leia Brasil, Paixão de Ler e diversas Bienais do Livro, além da participação como especialista na arte de contar histórias em seminários e jornadas de leitura.

Ministrou oficinas e implantou núcleos de contadores nas empresas: Furnas, Sulamerica e Unimed-Rio.

Foi o fundador e dinamizador do Grupo Latão de Histórias da Comunidade do Morro Santa Marta.

Atualmente, coordena a Spaço dos Contos/RJ, o primeiro centro de formação continuada de contadores de histórias do Brasil.

Jiddu Saldanha - Como você iniciou sua carreira de contador de histórias?

Laerte Vargas - A primeira oficina de que participei já, de cara, me deixou muito instigado a continuar. Na verdade, ainda tinha o olhar do ator e o pouco investimento necessário para contar histórias me interessou mais como uma ferramenta profissional do que como uma opção de linguagem. Mal sabia eu que o bichinho do contar já havia me fisgado. Logo reuni um grupo de pessoas para que começássemos a contar e a formar um repertório. Felizmente encontrei algumas instituições que abriram as portas para o meu trabalho, que desde o início foi remunerado. Dessa forma, o ofício foi tomando cada vez mais espaço em minha vida e me deu retorno imediato para a compra de livros e impressão de materiais de divulgação. Trabalhei um ano direto com o Museu de Folclore Edison Carneiro, participando de festivais de contos populares, material que se tornou o grande nicho de pesquisa de repertório para mim. Depois disso, os convites se sucederam e não parei mais.

JS - Na tua opinião, existe alguma relação entre o fazer teatro e o contar histórias?

LV - Existe uma diferença que, para mim, é fundamental: o ator representa; o contador de histórias apresenta. Quando o narrador começa a se sobrepor à história e necessita de muitos elementos para evocar as imagens que ela suscita, aí deixou de ser contação e passou a ser outra coisa, bem diferente. Esse papo de contação teatralizada é conversa pra boi dormir. Sempre digo que contar histórias é um exercício de simplicidade e generosidade. Na maioria das vezes, os elementos cênicos são desnecessários, pois eles acabam engolindo a história e o pretenso contador, com sua vaidade exacerbada, vai passando como um trator por cima do conto. Assim, o que resta é apenas um exercício narcísico. É importante dar espaço para que os ouvintes criem suas próprias imagens: esse é um dos maiores trunfos da contação frente à tecnologia atual. A imaginação anda preguiçosa, pois tudo vem muito pronto e arrumadinho. A criança, principalmente, precisa muito dessa ginástica imaginativa.

JS - O que mais te inspira a seguir nessa carreira?

LV - Propagar a ideia de que qualquer um pode contar histórias. A espetacularização da contação tira essa possibilidade, dá a sensação de que só aquela tribo que cursou a escola “TAL” ou outro curso de teatro, que fez aulas com a fono da moda ou que fez um trabalho corporal mirabolante pode realizar. A intenção primeira das minhas oficinas é que todos saiam instigados a contar. Sempre existirão contadores para grandes espaços e contadores para pequenas salas. E todos eles são fundamentais à sociedade. Cada um com o seu tempo, o seu ritmo, o seu olhar único e inimitável. Contadores são como um oásis na aridez das relações humanas de hoje em dia.

JS - Cite algumas histórias que você considera fundamentais para o desenvolvimento humano.

LV - Todas as histórias tradicionais (a maioria oriunda da tradição oral) são fundamentais para o desenvolvimento humano. Basta investigarmos as entrelinhas. A primeira chamada do meu blog é: “Aqui as historinhas são coisa séria”. Acostumou-se a ver esse material como uma coisa descartável e/ou banal, mas elas tratam, em uma linguagem metafórica, dos percalços da nossa trajetória. Esses contos nos conduzem a reflexões profundas acerca das nossas decisões e padrões de comportamento. A vastidão desse material é impressionante: encontramos contos que falam de incesto, homossexualidade, compulsão, enfim, para cada questão do ser humano existe uma história curativa. Acho que a Clarissa (Pínkola Estés) disse alguma coisa assim.

JS - Como você vê o panorama da contação de histórias no Brasil de hoje?

LV - Existem profissionais que desenvolvem pesquisas primorosas, mas a contação virou uma moda que pode acabar transformando a arte de contar histórias em algo extremamente descartável como o batom da estação. Às vezes, quando recebo as programações dos seminários e encontros de contadores nos estados e municípios fico pesaroso, pois constato que os contadores de causo de cada lugar são muito pouco prestigiados. Preferem pagar passagem aérea, hospedagem e alimentação para o/a incrível contador/a de histórias que conta em parada de mão com uma banana enfiada no ouvido. Detalhe: ela conta de costas para o público. Cada estado tem um acervo riquíssimo de histórias populares e, certamente, tem quem as conte. E aquele jeito de contar que encanta é que é o jeito certo de contar. Que vivam e sobrevivam as diferenças!!!

JS - O que você recomenda para os jovens que queiram conhecer melhor esta forma de expressão artística e se profissionalizar?

LV - Ouvir muitas histórias e ler toda a obra dos irmãos Grimm. Ahhh, e não ter pressa nenhuma em se profissionalizar...

JS. Quem é Laerte Vargas por Laerte Vargas?

LV - Um menino que tem medo do boi da cara preta.

Para conhecer melhor o contador de histórias Laerte Vargas clique aqui

Para obter informações sobre as oficinas de Laerte Vargas clique aqui


sexta-feira, 11 de março de 2011

Moacyr Scliar por Edmílson Caminha

Conheci Edmilson Caminha na cidade de Itabira - MG terra do poeta Carlos Drummond de Andrade, nos anos 90 do século passado. Edmilson é um mestre da palavra e da oralidade. Um narrador autêntico em todos os sentidos. Um "Mestre Griot" no melhor estilo brasileiro! Em Itabira, todos nós, entre entusiastas e poetas ficávamos sempre por perto quando ele abria o verbo e tecia narrativas sobre os grandes escritores que o Brasil tem. Esta semana, recebi este belo texto em que Edmilson Caminha, comenta a entrevista que fez com Moacyr Scliar em 1987

O DERRADEIRO GALOPE DO CENTAURO

(Edmílson Caminha)

Em Moacyr Scliar, tão notável quanto o escritor ilustre era o ser humano digno, a pessoa ética, o cidadão exemplar que mereceu, ao longo da vida que lhe foi dada viver, o afeto dos amigos e o reconhecimento dos leitores. Entrevistei-o no ano de 1987, em Porto Alegre, quando me recebeu na Secretaria da Saúde, onde trabalhava como médico sanitarista. Publicada primeiramente no Diário do Nordeste, de Fortaleza, a conversa também se acha no meu livrinho Palavra de escritor (Brasília : Thesaurus, 1995). Em carta que gentilmente me enviou, o entrevistado faz elogios ao texto, e diz que providenciou cópias para entregá-las aos jornalistas e estudantes que o procuram.

À pergunta sobre como a condição de judeu se revelava em sua obra, Scliar respondeu, com a inteligência e o saber que todos admirávamos:

— Os povos da antiguidade legaram ao mundo grandes monumentos, como as pirâmides, os templos, importantes obras de arte; o povo judeu nada deixou a não ser um livro, mas um livro que condicionou o destino de milhões de criaturas neste nosso mundo. Essa veneração pela palavra escrita, pelo livro de maneira geral, na minha família era muito acentuada: embora pobres, nunca nos faltou, a mim e aos meus irmãos, dinheiro para comprar livros. Desde cedo fomos induzidos ao hábito de escrever, tanto mais que a minha mãe era professora primária, do próprio colégio onde eu estudava, e me estimulou muito a escrever. Além disso, no contato com os imigrantes ouvi muitas e muitas histórias interessantes.

Uma delas foi, certamente, a que lhe contou o pai José, imigrante russo chegado ao Brasil na década de 1920. Ouvi-a narrada por Moacyr no ano passado, quando juntos participamos da Feira do Livro de Guarulhos:

— A viagem de navio, longa e desconfortável, foi um pesadelo. Ao desembarcar com a família, a aparência daquele menino de oito anos devia ser péssima, pela pobreza dos trajes, pela fome estampada no rosto e pelo medo que lhe dava o país estranho em que punha os olhos pela primeira vez. Sensibilizado pela expressão de sofrimento, um homem se aproxima e lhe entrega... uma banana. Era o que podia oferecer, antes que o pequeno desfalecesse e fosse de encontro às pedras do cais. Ocorre que a generosidade trouxera um problema para a criança: que diabo de fruta era aquela? Como comê-la? Se fosse maçã, uva, pera, cultivadas nos campos da Rússia... Mas aquela coisa amarela, meio curva, que jamais vira nem desenhada em livros? José olhou, examinou e, afinal, decidiu: começou a descascá-la, jogou fora o que lhe pareceu um caroço meio mole... e comeu a casca!

Muitos anos depois, Scliar ouviria do pai a conclusão que lhe soava como a moral da história:

— Sabe que comer casca de banana não é assim tão ruim como a gente pensa? Até que dá pra engolir, principalmente quando se está com fome...

Essa, a experiência de vida e a sabedoria humana que o escritor converteu em ficção da melhor qualidade, a exemplo do romance O centauro no jardim. Em 27 de fevereiro, aos 73 anos, Moacyr Scliar, com a discrição e a elegância que lhe eram próprias, cavalgou pela derradeira vez o centauro, mito que tanto o fascinava, pois, metade homem e metade cavalo, é a um só tempo realidade e fantasia, as duas grandes matérias de que se faz a literatura. Partiu a galope rumo à eternidade, onde campeará para sempre nas coxilhas celestes, um suave e luminoso pampa que não tem começo nem fim...

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar - 1937 - 2011


Entrevistei Moacyr Scliar em meados da década de 2.000. Por vezes o encontrei em diversos eventos literários. Uma pessoa a quem admirei silenciosamente. Quando desejei entrevista-lo ele me pediu que fossem perguntas breves e apenas 3.
Segue então a entrevista com um mestre da literatura:

Jiddu Saldanha - Onde a literatura e a medicina se encontram?
MOACYR SCLIAR - em muitos pontos. A medicina é uma experiência humana transcendente; quando a pessoa está doente, caem todas as máscaras, ela se revela por inteiro. A dor, a doença, a morte, ensinam muito. Por outro lado, a literatura pode ensinar muito aos médicos, porque o escritor tem uma visão do doente como um ser humano. Hoje em dia muitas faculdades de medicina incluem a literatura no currículo.
JS - O que te motivou a escrever?
MS - Foi a vontade de contar histórias (coisa que aprendi com meus pais - eram grandes narradores) e a paixão pela leitura que veio desde cedo, graças à minha mãe, que era professora e me ensinou a amar os livros.
JS - Quem é Moacyr Scliar por Moacyr Scliar?
MS - Eu me vejo como um cara muito simples, alguém que se esforça por descobrir, através da literatura, os segredos da existência; alguém que quer compartilhar com os outros, a alegria e a emoção da palavra escrita. Gosto de estar com minha família, gosto de ler, de escrever, de cinema, de jogar basquete (pena que jogue muito mal).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mohandas Karamchand Gandhi


Mahatma Gandhi (do sânscrito "Mahatma", "A Grande Alma")

Mahatma Gandhi tinha o dom da palavra e com certeza foi um grande narrador. Seu legado? Deixou um rastro de reflexão e de como podemos transformar sem violência, transgredir sem ódio, vencer sem guerras!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Benita Prieto - Rio de Janeiro/RJ

- Entrevista revista e ampliada em 22.09.2011

Em 1993 fui aluno do grupo Morandubetá com quem estudei técnicas de narração de histórias. Fui aluno de  todos os membros do Grupo. Na época se revesavam na sala de ensino de narração, n UERJ: Celso Sisto, Lúcia Fidalgo, Eliana Yunes e Benita Prieto. 
Em 2002 fui convidado para ser o apresentador do II Simpósio Internacional de Contadores de História e foi quando despertei, de fato, para a arte de contar histórias. Nunca mais fui o mesmo! 
Benita foi a pessoa que incendiou o caminho de uma nova possibilidade artística para mim e agora, já com 10 anos de história como Narrador, agradeço a esta pessoa visionária que contribuiu para que a arte da narração encontrasse um chão firme onde pisar, por este imenso Brasil.
Segue aqui uma entrevista feita em 2003, revisada em 2010 e relançada agora, em 2011, quando se aproxima a data de comemoração dos 10 anos do Simpósio. Vamos conhecer um pouco desta grande articuladora da arte de Narrar.



Benita Prieto além de contadora de histórias é também uma incentivadora do movimento em todo o Brasil. Vamos conhecer um pouco de seu pensar e viver esta arte dos grandes mestres griôs!
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Jiddu Saldanha - Fale um pouco da sua carreira como contadora de histórias, há quanto tempo você se dedica a este trabalho.

BP - Dizem que conto histórias desde pequena, mas não me lembro disso. Na verdade, eu já brincava com personagens aos 5 anos de idade, no atelier do Sr. Chico, que era carnavalesco do Salgueiro. Oficialmente ingressei nessa área quando fui convidada para entrar no Grupo Morandubetá, em 1991. Já era atriz e passei a me dedicar a narrar. Foi uma guinada e ao mesmo tempo um desafio. Durante o primeiro ano de trabalho só sabia contar uma história, precisava ter bastante experiência com ela para me sentir segura. Um dia tudo se abriu dentro de mim e passei a acreditar que realmente podia ser uma contadora.

JS - Que transformações você vem sentindo na forma de se lidar com crianças no Brasil.

BP - Acho que as crianças continuam a ser tratadas como imbecis na maior parte do tempo. Existe uma idéia tatibitate de relação. A conversa não flui e sempre descamba para lição de moral. Claro que estou falando do rádio e TV, embora mesmo nessas mídias existam exceções que não chegam ao grande público. Por outro lado há um desrespeito total aos valores sociais, éticos, psicológicos. É preciso uma mudança rápida e efetiva ou senão teremos muita gente perversa dirigindo esse país nos próximos anos.
Mas vamos fazer justiça à ação da literatura infantil e juvenil que tem chegado aos anseios da criança. Os autores e ilustradores brasileiros são fantásticos. Os livros estão bem cuidados. O que falta é termos bibliotecas em todos os municípios e um barateamento no custo do livro. Assim haverá uma democratização da leitura.

JS - Como surgiu o grupo Morandubetá?

BP - Antes é bom dizer que Morandubetá significa muitas histórias na língua tupi. O grupo de contadores de histórias surgiu em 1990 na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil após curso com o grupo venezuelano "En Cuentos y Encantos". O grupo é formado por profissionais de diversas áreas de atuação: Celso Sisto, Eliana Yunes, Lúcia Fidalgo e Benita Prieto.

JS - Que tipo de atividade você e o grupo têm desenvolvido
ultimamente


BP - Nos últimos anos fizemos apresentações por todo o Brasil e exterior. Temos estado por bibliotecas, seminários, congressos, simpósios, escolas, universidades, hospitais, teatros, feiras de livros, museus, praças públicas, programas de rádio e de televisão. Além de apresentações ministramos oficinas e palestras nas áreas de Literatura, Leitura e Narração Oral.

JS - O simpósio de contadores de histórias tornou-se agenda obrigatória no Rio de Janeiro, fale deste projeto, como surgiu a idéia de criar um evento desta magnitude?

BP - Em 1996 fui com a cara e a coragem até a Argentina ver o Encontro de Contadores de Histórias. Fiquei encantada e pensei que não era justo o Brasil não ter esse tipo de evento. Comecei então minha batalha para convencer um patrocinador que aceitasse o desafio. Em 1999, o Leia Brasil, que era patrocinado pela Petrobras topou. Assim com apoio do SESC Rio e SESC São Paulo fizemos o primeiro Encontro Internacional de Contadores de Histórias. Em 2002 o SESC Rio comprou a idéia e passou a ser o parceiro do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias. Desse modo estamos inseridos nos eventos internacionais nessa área e somos referência para outros países.

JS - Desde que você começou a trabalhar com histórias, o que, de fato, tem mudado no Rio de Janeiro e Brasil, no que tange à forma de se trabalhar com crianças e adultos, através desta linguagem?

BP - No princípio ninguém sabia o que era contar. Diziam que estávamos representando, lendo, dramatizando histórias. A imprensa, as instituições, os patrocinadores não entendiam o que fazíamos. A própria equipe da Bienal do Livro de 1995 pediu que fizéssemos uma apresentação no SNEL para mostrar como trabalhávamos. Foi nesse ano que os contadores atuaram no Canto dos Contos, coordenados pelo Morandubetá. Um sucesso e uma projeção para essa arte. Dai muita gente pensou que era moleza e passou a fazer de qualquer jeito. Sem usar a arte de contar para promover a leitura que sempre foi o nosso objetivo.
Mas o tempo passou e ganhamos uma dimensão e um status. Hoje os contadores de histórias que estão na ativa são muito qualificados e estudiosos. Muitas universidades mostram a técnica de contar, através de cursos extracurriculares. Todos os veículos de comunicação sabem quem são os contadores e a importância que tem para a preservação das culturas populares e aproximação dos jovens à leitura.

JS – Em 2003, você esteve em Moçambique, conte aos leitores do "La Estrada" como foi, viver a experiência de levar a narrativa ao estilo brasileiro para a África?

BP - Existem momentos nas nossas vidas que parecem sonhos. Foi o que aconteceu comigo em relação à África. Somos tão diferentes e tão próximos. Nossa forma de contar é muito sintética. Mas eles adoraram. Divertiram-se muito com nosso humor. Acharam esquisitas nossas histórias de assombração, pois a relação deles com os espíritos é ancestral. Vibraram com os contos autorais brasileiros. Interessante é que eles também usam bastante o corpo para contar, diferente dos europeus, que normalmente só trabalham a palavra.

JS - Cite alguns dos contadores de histórias que você. tem encontrado no teu caminho e que te impressionaram.

BP - Vou falar de uma unanimidade, em primeiro lugar. É o nosso mestre Fernando Lébeis, a voz mais impressionante que já ouvi na vida. Ele me despertou o amor pela cultura popular, me ensinou a olhar com carinho as nossas histórias. Anos depois conheci Ana Garcia Castellano, da Espanha, que me impactou pela sua força narrativa e pela sua essência poética. Esses são dois exemplos, mas eu aprendo com cada contador alguma coisa. São essas sutilezas que me fascinam na arte de narrar. A mesma história pode ser contada de várias maneiras e todas serão belas desde que haja a entrega de quem narra.

JS - O que você gostaria de sugerir aos jovens que querem iniciar uma carreira de contador de histórias?

BP - O mais importante é que estudem e leiam muito. Não há no Brasil uma formação específica nessa área, desse modo o interessado tem que ser autodidata. Precisa fazer muitas oficinas, ver muitos contadores, descobrir o seu estilo de contar, o gênero de história que lhe dá prazer. Evitar copiar o repertório dos outros contadores. E principalmente usar os seus próprios recursos. Somos contadores na essência, estamos durante toda a vida construindo histórias. A narrativa faz parte do dia a dia. Um olhar para dentro pode ser o estopim dessa arte em cada um de nós.

JS – Recentemente foi criado o Instituto Conta Brasil do qual você é presidente. Quem compõe a diretoria e qual o objetivo do instituto.

BP - O Conta Brasil, Instituto dos Contadores de Histórias do Brasil, é uma organização sem fins lucrativos, de caráter social, cultural, científico e educacional que tem como fim promover um espaço de debates e ações nas áreas da tradição oral, da literatura e da leitura, abrangendo contadores de histórias, mediadores e agentes de leitura, educadores, artistas, cientistas, pesquisadores e afins. E objetiva congregar contadores de histórias, mediadores e agentes de leitura que propaguem a tradição oral e a literatura do Brasil e de outros países.
São Sócios Fundadores os contadores de histórias de sete estados distintos, com reconhecida atuação no movimento dos contadores de histórias e incentivo à leitura: Benita Prieto / Rio de Janeiro (Presidente), Zé Bocca / São Paulo (Vice-Presidente), Rosana Mont’Alverne / Minas Gerais (Diretora de ação cultural), Glauter Barros / Rio de Janeiro (Diretor administrativo), Almir Mota / Ceará (Diretor financeiro), Fabiano Moraes / Espírito Santo (Diretor de comunicação), Luiz Elói / Minas Gerais; Lenice Gomes / Pernambuco e Gilka Girardelo / Santa Catarina (Conselho fiscal).

domingo, 16 de agosto de 2009

Entrevista com Tatiana Henrique!















Observo o trabalho de Tatiana Henrique por pelo menos 5 anos, resolvi então entrevistá-la para que os leitores do blog Mestres Narradores a conheçam melhor.


Mestres Narradores – Como foi que você começou a lida de contar histórias por aí?

Tatiana Henrique - Foi assim: antes da contadora, veio uma menina tímida, tímida, que ouvia a prima contar piadas. Eu achava lindo, a minha prima fazendo expressões várias, usando as entonações de voz (na época, claro, eu não dava esse nome para essas coisas, mas percebia todos esses movimentos e ficava encantada com isso – como podia? Ela contar daquele jeito?)...
Só tinha um problema – em mim!: Eu não conseguia memorizar nenhuma piada! Nem reproduzir aquilo que via – pois é, eu fui aprender depois que, para contar qualquer coisa, você tem de estar envolvido com essa história e não apenas contar por contar...
E mais: a menina era tímida, e foi crescendo assim, com vontade de contar, de fazer as pessoas rirem do que ela falava, de se comunicar de alguma maneira.
Vida vai, vida vem, muita água rolou por baixo da ponte. E chegou um dia que eu decidi: iria fazer teatro. Foram os anos mais completos da minha vida. Como era feliz não ter dinheiro, mas ensaiar, ensaiar e apresentar o trabalho.

MN – E enquanto isso você buscava uma definição profissional?

TH - Tentei vestibular e não passei, e então me vi assim: com 20 anos e uma necessidade interna de não ficar sem emprego e nem faculdade, ou seja, começar uma trilha profissional. Então, decidi: vou começar pelos textos. E entrei para a faculdade de Letras.
Foi muito triste, pois sabia que não iria mais ter o tempo disponível que eu tinha antes. Que eu teria de parar mesmo.
Aí, olha só o que acontece: meu companheiro na época disse: “Ah! Você ainda pode contar histórias!” Eu fiquei tão injuriada quando ele me disse aquilo! Senti como se fosse um palavrão – eu não sabia o que era isso e pensava ser algo de “categoria menor”.
No 2º período, entrei para o CCBB e progredindo, fui para no Setor Educativo. Houve uma reformulação da proposta pedagógica e dentro dela foram incluídas as contações de histórias. Então, de repente, comecei a me envolver com isso, já que vinha de dois campos que convergiam para aquilo: Letras e Teatro.

MN – E ai você foi descobrindo que era uma narradora em potencial?

TH - E fui aprendendo, na prática, no contato com as pessoas, a ouvir as histórias e a transformá-las em contação. E foi ótimo, porque, como eu não fiz nenhum curso para “aprender”, eu tinha de ficar atenta a tudo e testar tudo que aparecesse: objetos, músicas, figurinos etc. etc. A única oficina de contação de histórias que fiz na vida foi com Francisco Gregório, no Paço Imperial, RJ. Mas nesse momento eu já tinha uma linguagem, já havia encontrado a minha praia, a minha simplicidade: o corpo! O meu figurino a partir de então era apenas para me dar liberdade, me deixar esteticamente apresentável ao público, as músicas não eram só para divertir ou acordar ou quebrar momentos, mas se tornaram texto também. Enfim, fui modelando o meu modo de contar, no qual eu acredito: uma conversa íntima de troca de experiência com o corpo imbuído 100% nas delicadezas e forças das palavras.

MN - Parece que pintaram umas viagens neste período, não?

TH - Em 2005, a coisa pegou uma cauda de estrela e foi pro céu: uma equipe do Miami-Dade Public Library System veio ao Brasil visitar vários locais e entre eles, o CCBB. Eu fiz a apresentação do espaço com eles e começamos a conversar sobre as atividades e eu falei sobre as nossas contações, a tradição oral. Foi quando a Sra. Lucreece Louidshon, diretora do Sistema contou o motivo da vinda deles ao Brasil: era o 5º ano que eles realizavam o “The Art of Storytelling”, um festival de contação de histórias, promovido por esse sistema de bibliotecas. A cada ano, um país diferente era homenageado e na edição de 2006 seria o Brasil. Por isso, eles estavam nos visitando para conhecer os aparelhos culturais disponíveis e escolher... um contador de histórias para representar o país no festival e... achavam que haviam acabado de encontrar!

MN - Quais histórias você contou no The Art of Storytelling?

TH - Contei duas histórias: “a menina e a figueira” e “mãe d´água”.
Vou te dizer: fiquei muito preocupada antes de acontecer. Isso porque eu sabia como o público brasileiro normalmente reagia a essas histórias. Mas, lá?! Como seria?
Eu tinha me formado em 2004 e escrito a minha monografia “Contando com o Espaço”, em que falava sobre o papel das configurações espaciais na relação entre contadores e público (um dia ainda transformo em livro). Havia estudado sobre as diferenças culturais de tolerância à proximidade e esses estudos diziam: cada povo encara isso de modos distintos. E fiquei “encucadíssima”, pois no princípio de intimidade, que eu seguia, eu tinha liberdade de me aproximar das pessoas. E lá?

MN – Como eles reagiram?

TH - Pois eu tive uma surpresa maravilhosa: eu aprendi que o mais de tudo é a história e não importa onde a história nasceu ou foi falada: todas elas falam de seres humanos, das suas alegrias, desejos e frustrações. E qualquer ser humano, tenha nascido no Brasil, nos EUA ou na Groenlândia tem sentimentos. Ponto!
E foi uma delícia: todo mundo recebeu as histórias super bem!
Depois disso, recebi mais dois convites: para a Miami Book Fair e para o PanAfrican Book Fest, os dois em 2007. Contei nesses eventos e em escolas. Aí veio a crise nos EUA e os cortes e daí vai!
E o trabalho começou a crescer e crescer muito.
Meu próximo desejo é ir à África norte-ocidental e à Índia para observar os contadores de lá. As oficinas que eu compartilho são em cima dessas duas culturas: a tradição oral e os princípios “griot”, o que podemos aplicar nos dias de hoje, e os ensinamentos do Natya Shastra – estou em busca alucinada por esse.

MN – Como você vê hoje o universo dos contadores de histórias desde que você começou até hoje?

TH - Acredito que houve uma tomada de consciência das tradições por parte dos jovens. E acho isso importantíssimo, não só por motivos profissionais, mas para a construção de identidades. Assim, há um equilíbrio saudabilíssimo entre as tecnologias e tudo que elas podem nos oferecer e a origem de quem somos. E essa é fundamental para uma utilização consciente da primeira.
Agora: também vejo muitas coisas que me incomodam: já vi gente utilizando muita coisa ao mesmo tempo agora pra contar. E acabava que a história ficava perdida. A pessoa queria aparecer mais que a história. Logo, a contação não acontece! Não houve troca, não houve afeto. Não se instaura uma espécie de paraíso que a história instaura na gente. Aí, quando vejo isso, sinto “puxa, que pena...!”
E sabe o que eu acho mais engraçado: é não perceber que se a história aparece, o contador automaticamente aparece junto. Mas isso é muito sutil, tem uma hora que você percebe. Não adianta ninguém apenas te dizer isso; tem que haver aquele click interno.

MN – Quem são os artistas desta área que você gostaria de citar aqui e o que te impressionou no trabalho deles?

TH - Puxa, Fracisco Gregório, Inno Sorsy e Boniface Ofogo: com eles aprendi a usar minha voz, a encontrar a Tatiana menina que queria juntar todo mundo pra contar coisas e causar efeitos nas pessoas sobre as coisas que ela conta. Também com eles, me sensibilizei a procurar minhas tradições internas. Porque minha família é daquele tipo brasileiro-cosmopolita: a gente não sabe muito bem de onde veio. Sabe os genéricos: português, italiano, indígena, africano. Mas de onde exatamente, qual é a etnia, nós não sabemos. Então sempre senti falta de ter histórias que foram contadas pra minha avó, que passou pra minha mãe e pra mim, entende? Então, decidi: Ah! Vou criar minhas tradições a partir de agora. Se sou cosmopolita, então o mundo é minha tradição! As histórias do mundo inteiro são minhas também, foram herdadas por mim. Vou escolher aquelas que tocarem o meu coração e pronto: tá aí meu baú, a minha tradição! (RS)

MN – O que a contação de histórias acrescentou para sua vida pessoal?

TH - Nossa, são tantas coisas! Profissionalmente, ele me deu ferramentas para trabalhar meu corpo esteticamente, me dando um caminho que, seja em Teatro, em Contação de Histórias ou em Educação, eu sigo sempre.
E pessoalmente, me fez ver o mundo com mais poesia, unir o lógico ao ilógico. E prestar mais atenção nas pessoas, nas suas histórias, no que elas têm a compartilhar. As histórias me ensinaram a ouvir a estar atenta. E isso é difícil pra quem vive nesse turbilhão que são os dias de hoje.

MN - Quem é Tatiana Henrique por Tatiana Henrique?

TH - A Tatiana Henrique é uma pessoa extremamente comum, que faz bico, fica de cara amarrada, sorri, chora, e que tem uma vontade profunda de deixar algo de positivo nesse mundo que acrescente uma visão, uma audição, um tato, um paladar, um olfato, diferentes do que a gente costuma ser ensinado que a gente tem de ter.
É uma pessoa que acredita que as coisas e as pessoas não são separadas em caixinhas, que tudo tem dimensões, camadas e que pra percebê-las só o tempo pode ajudar.
E que adora massagem nos pés!


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entrevistada por Jiddu Saldanha http://www.jiddusaldanha.com/ tel: 21 92485170